DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.
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terça-feira, 9 de julho de 2013

                    
                                 AMÍLCAR CABRAL 

                                                LIII 

  LUÍS CABRAL, ARISTIDES PEREIRA, VASCO CABRAL 


No cimo da hierarquia política do PAIGC posicionaram-se três nomes de apelido “Cabral”: Amílcar, Luís e Vasco. Com eles trabalharam Aristides Pereira e Pedro Pires.

Luís Cabral e Agostinho Neto com Fidel Castro

Luís de Almeida Cabral, meio-irmão de Amílcar foi, por virtudes próprias, um dos dirigentes mais importantes do PAIGC. Viria a ser o primeiro presidente da Guiné-Bissau.
Nasceu em Bissau em abril de 1931. Era filho de Juvenal Cabral e da única mulher com quem ele casou oficialmente, Adelina Rodrigues Correia.  Contabilista, empregou-se em Bissau na Casa Gouveia, uma sucursal da C.U.F.
Já depois do massacre de Pidjiguiti, mudou-se para a vizinha Guiné-Conakry. Sete anos mais novo do que Amílcar, cresceu politicamente à sombra do seu carismático irmão. Foi cofundador do PAIGC, numa data que os historiadores oficiais gostam de fixar em 1956, mas que ocorreu provavelmente alguns anos mais tarde. 
Em 1963,  dois anos depois de ter fundado, em Conakry, a União Geral dos Trabalhadores da Guiné (UNTG), entrou para o Comité de Luta. Após o congresso de Cassacá, quando as seis Zonas de guerrilha foram substituídas por três frentes com chefias mistas, militar e política, Luís Cabral associou-se a Francisco Mendes no comando na Frente Norte.
Em 1965, foi nomeado para dirigir o conselho de Guerra. Em 1967, foi encarregado da administração do partido e das suas relações internacionais.
 Em Agosto de 1971, foi eleito para o secretariado permanente do Comité Executivo da Luta, com a responsabilidade de reconstruir as "zonas libertadas" pelo PAIGC na guerra pela independência. Eleito deputado à A.N.P. pelo círculo de Bissau em 1971, assumiu, nesse mesmo ano, a direção da luta na Frente Norte. 
Após o assassinato de Amílcar Cabral, a liderança do PAIGC foi entregue a Aristides Pereira, com o ramo guineense controlado por Luís Cabral. Em julho de 1973, no segundo Congresso do PAIGC, Luís Cabral foi eleito secretário-geral adjunto do partido.
 Quando o PAIGC declarou unilateralmente a independência da Guiné, em setembro de 1973, ficou a presidir ao Conselho de Estado. 
     No ano seguinte, após o 25 de abril e o reconhecimento formal da independência da Guiné por parte de Portugal, tornou-se o primeiro presidente da Guiné. Note-se que a independência de Cabo Verde foi reconhecida apenas em 1975.
O pós-guerra foi difícil na Guiné-Bissau. Uma plêiade de combatentes magníficos nada sabia fazer sem as armas na mão. A guerra reduzira a pouco a já frágil estrutura económica do território. Os quadros disponíveis eram cabo-verdianos e mal aceites pela população local. Apesar da ajuda internacional, a incompetência e a corrupção iam tomando parte do País. A verdade é que os colonos faziam falta.
A utopia da ligação fraterna entre a Guiné e Cabo Verde chegou ao fim com certa naturalidade. Em novembro de 1980, Luís Cabral foi deposto, num golpe de estado sem derramamento de sangue, pelo seu primeiro-ministro e antigo chefe das forças armadas, João Bernardo (Nino) Vieira. O ex-presidente foi acusado de abuso do poder e condenado à morte. Uma das acusações era a responsabilidade pela execução de milhares de militares africanos que tinham lutado ao lado de Portugal. Eram quase todos guineenses. Acabou por ficar 13 meses em regime de prisão domiciliária, antes de ser autorizado a deixar a Guiné.
Viveu em Cuba de 1981 a 1983. Tentou regressar a Cabo Verde, mas as várias cartas que escreveu a Aristides Pereira a manifestar essa intenção ficaram sem resposta. O governo português, com o apoio do Presidente Ramalho Eanes, ofereceu-lhe asilo político em Lisboa. 
Luís Cabral chegou no começo de 1984. Após a queda de Nino Vieira, ainda esteve na Guiné por um curto período de tempo. Viria a morrer em Torres Vedras, em maio de 2009.



Aristides Maria Pereira nasceu na ilha de Boavista, em Cabo Verde, em 1923 e foi colega de Amílcar Cabral no liceu Gil Eannes. Aos vinte e cinco anos, emigrou para a Guiné-Bissau e empregou-se como técnico radiotelegrafista. Começou cedo a sua atividade política nacionalista, procurando organizar a contestação urbana ao poder colonial. Reencontrou Amílcar, já engenheiro, em Bissau e ajudou a fundar o Partido Africano da Independência (PAI), que mais tarde se transformaria no PAIGC.
Após o congresso realizado na tabanca de Cassacá, assumiu a direção política da Frente Sul, em parceria com Nino Vieira. Aproximadamente na mesma altura, foi nomeado secretário geral-adjunto do partido. Ocupou o cargo até à morte de Cabral. No II Congresso do PAIGC, sucedeu-lhe, como secretário-geral.
A independência de Cabo Verde ocorreu a 5 de julho de 1975 e Aristides Pereira foi empossado como Presidente do novo País. Acumulou essas funções com as de secretário-geral do partido durante 16 anos. Pedro Pires foi sempre o seu primeiro-ministro.
Ao longo desse tempo, a equipa governativa teve de enfrentar algumas crises políticas. Em 1977 ocorreu uma tentativa de revolta contra o Estado e foram presos alguns cidadãos. No final da década de setenta, ocorreu a cisão entre “históricos” e “trotskistas” no seio do PAIGC. Em 14 de novembro de 1980, o golpe de estado de Nino Vieira pôs termo ao PAIGC como partido de duas nações e o braço cabo-verdiano passou a chamar-se PAICV. No ano seguinte, deu-se a crise da reforma agrária na ilha de Santo Antão.
O ano de 1989 ficou ensombrado pela morte de Renato Cardoso. Cardoso, licenciado em Direito em Lisboa e cristão protestante, era um homem brilhante. Apesar de ser bem mais socialista que marxista, foi conselheiro do primeiro-ministro e desempenhava, na altura da sua morte, as funções de Secretário de Estado da Administração Pública. Não alinhava nem com os “históricos” nem com os “trotskistas” do “grupo de Lisboa”. A seu pedido, foi recebido por Aristides Pereira na véspera da sua morte e revelou que receava ser preso. O Presidente não terá levado a sério as suas preocupações. O assassínio ocorreu a 29 de setembro de 1989. O crime nunca foi desvendado e os seus autores (ou autor) permanecem impunes.
A direção de Aristides Pereira caracterizou-se por uma política externa de não-alinhamento face às grandes potências mundiais, com uma certa aproximação à China e à Líbia. Internamente, procurou melhorar as condições de vida dos camponeses. O essencial da política do governo cabo-verdiano durante este período foi exposto por Leston Bandeira na sua biografia de Pedro Pires. Pôs-se em prática o projeto antigo de reter a água das chuvas e deu-se início a um programa de reflorestação. Cresceram as áreas de regadio. A ajuda alimentar internacional não era distribuída gratuitamente pelas populações, sendo os produtos introduzidos no mercado e o produto das vendas convertido num “Fundo de Reconstrução Nacional” que pagava as obras públicas do país.
Segundo Vicente Lopes, Aristides Pereira era introvertido, austero e reservado. “Aristides Pereira não tinha grandes veleidades ideológicas. Era um chefe de família e provavelmente dirigia Cabo Verde nessa perspetiva”. As suas características pessoais e a “cautela e reserva” com que acompanhava o processo político terão evitado que “o regime aqui em Cabo Verde se tornasse tão extremista como em Angola, Moçambique, Guiné e São Tomé”.
Em fevereiro de 1991, o regime democratizou-se e tiveram lugar as primeiras eleições presidenciais. Aristides foi derrotado por António Mascarenhas Monteiro, candidato apoiado pelo MDP que vencera já as eleições legislativas. Encerrada a sua carreira política, Aristides Pereira mudou-se para Portugal.
Em 2003, publicou o livro “O Meu Testemunho. Uma Luta, Um Partido, Dois Países”, em que fala da sua experiência durante o período da luta armada e ao longo do exercício da função presidencial em Cabo Verde.
Faleceu em Coimbra, em setembro de 2011.



Vasco Cabral não é familiar de Amílcar nem de Luís. Trata-se de uma coincidência de nome. Nasceu  em Farim, na Guiné Portuguesa, em 1926. Estudou na Universidade Técnica de Lisboa. Foi militante do MUD juvenil, um movimento unitário de oposição à ditadura fascista, fortemente influenciado pelo PCP.
Em 1949, colaborou ativamente na campanha de Norton de Matos, candidato da Oposição antissalazarista à Presidência da República Portuguesa. Em 1950 concluiu o curso de Ciências Económicas e Financeiras. Em 1953 participou, em Bucareste, no IV Festival Mundial da Juventude. Foi preso pela polícia política salazarista, ao regressar a Lisboa. Esteve encarcerado no Aljube e em Caxias e só foi libertado cinco anos mais tarde.
Militante comunista, Vasco Cabral passou à clandestinidade em 1961. No ano seguinte, o Partido Comunista Português (PCP) organizou uma fuga coletiva de estudantes anticoloniais. Vasco Cabral embarcou com Agostinho Neto rumo a Tânger. Foi depois ao encontro de Amílcar para se juntar ao PAIGC e lutar pela independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.
Terá sido um dos teóricos do PAIGC. De acordo com alguns testemunhos, manteve, ao longo da vida certa ligação ao PCP.
Não se opôs ao golpe de Nino Vieira. Foi Ministro da Economia e Finanças, Ministro da Justiça e Vice-Presidente da Guiné-Bissau. Teve ainda tempo para dedicar à poesia, alinhando com a escola neorrealista corrente na sua época. Publicou, em 1981, o livro “A Luta é a minha primavera” que reúne seis dezenas de poemas escritos entre 1951 e 1974. Foi fundador da União Nacional de Escritores da Guiné-Bissau.
 Faleceu, em Bissau, em 2005.

         ONDE ESTÁ A POESIA?

A poesia está nas asas da aurora
            quando o sol desperta.
A poesia está na flor
             quando a pétala se abre
             às lágrimas do orvalho.
A poesia está no mar
            quando a onda avança
            e branda e suavemente
            beija a areia da praia.
A poesia está no rosto da mãe
            quando na dor do parto
             a criança nasce.
A poesia está nos teus lábios
             quando confiante
             sorris à vida.
A poesia está na prisão
            quando o condenado à morte
            dá uma vida à liberdade.
A poesia está na vitória
            quando a luta avança e triunfa
            e chega a Primavera.
A poesia está no meu povo
             quando transforma o sangue derramado
             em balas e flores
             em balas para o inimigo
             e em flores para as crianças.
  A poesia está na vida
             porque a vida é luta

                Vasco Cabral

domingo, 16 de junho de 2013

                                             
                                                AMÍLCAR CABRAL

                                                              LIX                      

                         

          OS COMANDANTES DO PAIGC


Os jovens enviados para receberem instrução militar na China tornaram-se os primeiros comandantes da guerrilha. Alguns viriam a ser dirigentes importantes do PAIGC. Estavam entre eles Domingos Ramos, Osvaldo Vieira, Rui Djassi, Vitorino Costa, Constantino Teixeira, Hilário Gomes (Lolo), Pedro Ramos, Manuel Saturnino Costa, Francisco Mendes e Nino Vieira.
Antes de dar início à luta armada, Amílcar Cabral dividiu a Guiné em várias zonas operacionais e designou os respetivos responsáveis político-militares.
1 - Zona Sul. Incluía Unal (sede) Quetáfine, Cubucaré, Balana e Como. Para a chefiar, foi apontado Nino Vieira
2 – Zona Centro-Sul, a sul do rio Geba. Englobava Quinara (a sede), Tite (o local onde começou a guerra), Cubisseco, Buba e N`Djassani. Era dirigida por Rui Djassi.
3 – Zona do Xitoli. Abarcava o Xitoli (sede) e Bafatá. A comandá-la, estava Domingos Ramos.
4 – Zona Norte. Tinha sede em Morés e incluía o Oio. A direção era múltipla: Osvaldo Vieira, Chico Mendes, Lolo e Manuel Saturnino Costa.
5 – Zona Leste, com sede no Gabu, no território fula. Era a zona considerada mais complicada para a implantação do PAIGC pois muitos régulos da etnia fula eram fiéis ao governo português. Para a dirigir, Cabral nomeou Vitorino Costa, tendo como adjuntos Pascoal Alves e Bobo Queita.
6 – Zona Zero (Bissau). Era comandada por Luciano N`Dao, Constantino Teixeira e Pedro Ramos.
No Congresso de Cassacá, a organização militar foi modificada e os comandos militares foram remodelados. Em vez de seis Zonas, passou a haver três Frentes. Amílcar Cabral pretendia reforçar o controlo político sobre os guerrilheiros. Assim, cada Frente passou a ter dois chefes, um político e outro militar. O chefe político dirigia também o apoio logístico aos combatentes. O cargo exigia dirigentes bem preparados, o que excluía a maior parte dos guineenses. O que estes viram foi que o militar da Guiné ia para a mata enquanto o político de Cabo Verde ficava sentado a uma secretária em Conakry.
Osvaldo foi nomeado comandante da Frente leste, juntamente com Amílcar Cabral. Francisco Mendes e Luís Cabral passaram a dirigir a Frente norte, enquanto Nino Vieira e Aristides Pereira se encarregavam do comando da Frente sul.
Esta seleção reflete o prestígio entretanto conseguido por três dos melhores comandantes do PAIGC: Osvaldo Vieira, Francisco Mendes e Nino Vieira. Conheceriam destinos diferentes.
Alguns chefes guerrilheiros caíram em combate. Foi o caso de Rui Djassi. Terá morrido afogado no rio Corubal, em 1964, quando fugia das tropas portuguesas. Existe hoje em Bissau uma rua Rui Djassi. Simão Mendes foi abatido num ataque aéreo, em 1966. Após a independência, o seu nome foi dado ao hospital de Bissau. Domingos Ramos faleceu em Madina do Boé em 1966. António Nbana morreu, em combate, em 1968 e Pansau na Isna, que se distinguira na defesa da ilha de Como em 1964, morreu, também em combate, no setor de Nhacra, em 1970.
Osvaldo Vieira foi uma personalidade controversa no seio do PAIGC. Os seus desentendimentos com o secretário-geral ficaram famosos. Comandou a Frente norte, cuja base mais importante era Morés, que tinha Inocêncio Kani como responsável. O relacionamento dos guerrilheiros com a população da zona foi criticado por dirigentes do partido. Osvaldo foi afastado do comando em 1973, supostamente por saber da preparação do atentado contra Amílcar Cabral e de nada ter feito para o evitar. Diz-se também que, em Conakry, na altura do assassinato do líder histórico, havia perto de 200 militantes guineenses do PAIGC e que quase todos estava a para da conspiração. Osvaldo Vieira faleceu ainda nesse ano. As circunstâncias da sua morte não são bem conhecidas. Poderá ter sido executado. Os guineenses perpetuaram-lhe a memória, dando o seu nome ao aeroporto internacional de Bissau.
Chico Mendes, também conhecido por Chico Té, foi nomeado comissário principal (primeiro ministro) após a independência. Morreu em 1978, perto de Bafatá, alegadamente num acidente de automóvel. Há quem pense que foi assassinado.
João Bernardo Vieira, mais conhecido por Nino Vieira, papel de Bissau, nascido em 1939, eletricista de formação, revelou na mata da Guiné invulgares qualidades de chefe militar. Combateu durante toda a guerra de independência. Comandou as forças do PAIGC que resistiram na ilha de Como às tropas portuguesas envolvidas na Operação Tridente, em 1964, e chefiou o ataque ao quartel de Guiledje, em 1973, precipitando o pedido de demissão do general Spínola.
        No seguimento das eleições realizadas em 1972, nas zonas sob controlo do PAIGC, foi nomeado presidente da Assembleia Nacional Popular.
Após a independência, quando Chico Mendes morreu, Luís Cabral mandou-o vir de Cuba, onde estava a fazer estudos militares, para assumir o cargo de comissário principal.
Em 14 de novembro de 1980, Bernardino Vieira pôs fim ao sonho de Amílcar Cabral, derrubando o governo de Luís Cabral num golpe de estado sem derramamento de sangue. Os destinos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde deixavam de estar interligados.
Nino foi por três vezes presidente duma Guiné-Bissau que mergulhava em conflitos intermináveis entre as hierarquias militares, levando à eliminação física de várias personalidades públicas como o balanta Paulo Correia, o mandinga Ansumane Mané e o balanta Tagmé Na Waie, Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas.
Quem com ferros mata, com ferros morre. Horas após a explosão da bomba que vitimou Tagmé Na Waie, Nino Vieira foi brutalmente assassinado. Até aos dias de hoje, a Guiné-Bissau não encontrou os caminhos da estabilidade. 


sábado, 1 de junho de 2013

                    
                      AMÍLCAR CABRAL

                             LXVIII

   A ORGANIZAÇÃO DA GUERRILHA                                     



          Do lado da guerrilha, verificou-se relativamente cedo que as primeiras bases criadas no começo da luta armada tinham deixado de corresponder à realidade da situação militar. Por um lado, a maioria dos ataques envolvia efetivos reduzidos. Por outro, constituíam alvos fáceis para a aviação portuguesa. Foi decidido reorganizar os combatentes em grupos mais pequenos que poderiam reunir-se ocasionalmente para iniciativas mais ambiciosas. 
Em novembro de 1964 juraram bandeira os elementos das primeiras unidades do Exército Popular pensado no Congresso de Cassacá. Com guerreiros melhor preparados, foi possível abrir novas frentes de combate. No mesmo Congresso fora criado um Conselho de Guerra que dependia diretamente do secretário-geral e funcionava como estado-maior.
O Exército Popular compunha-se de unidades chamadas bigrupos. Contavam com cerca de 40 elementos cada, podendo ser reforçados.
A organização dos combatentes revolucionários modificou-se ao longo do conflito, de acordo com o equilíbrio de forças e as alterações no modo português de fazer a guerra.
Em 1965, os comandos militares inter-regiões mudaram de nome e de funções. Passaram a ser chamados comandos gerais do norte e do sul. Coordenavam todas ações de combate nas suas áreas. No ano seguinte, passaram a ser designados por comandos de frente.  Em 1969 deu-se nova reorganização. Foi criada a Comissão Nacional das Regiões Libertadas. Em termos militares, o rio Geba passou a separar as frentes norte e sul, as quais foram subdivididas em zonas ou setores.  
Em 1971, ocorreu uma nova reestruturação. A marinha ganhara importância. Passou a ser chamada Marinha Nacional Popular. Juntamente com o Exército Nacional Popular e as Forças Armadas Locais, compunha as Forças Armadas Nacionalistas.
A marinha integrava unidades navais e unidades de fuzileiros, cuja organização assentava também em bigrupos. Em 1971 instrutores russos começaram a treinar em Conakry uma unidade de homens-rãs.
O exército compunha-se de unidades de infantaria, artilharia e grupos especiais. A infantaria continuava a assentar a sua organização nos bigrupos de grande poder de fogo. A dada altura, até as forças coloniais adotaram esse modelo. Três ou quatro bigrupos formavam um corpo de exército. A artilharia compreendia grupos mais ou menos clássicos de 50 homens, unidades de canhões e morteiros com cerca de metade desses efetivos e grupos ainda mais pequenos de foguetões associados a outros meios antiaéreos. Os grupos especiais incluíam comandos, atiradores especiais com miras telescópicas e operadores de lança-granadas foguete (bazucas).
As Forças Armadas Locais substituíam as milícias. Assentavam em grupos de dezanove elementos armados com espingardas Simonov, pistolas-metralhadoras PPSH e bazucas (RPG-2). Existiam destacamentos femininos que não entravam em combate. As Forças Armadas Locais combatiam ocasionalmente ao lado do exército. Desempenhavam essencialmente missões de segurança, aliadas ao trabalho político. Colaboravam com as populações nos trabalhos agrícolas e na reconstrução das estruturas destruídas pelo fogo inimigo.
Entre 1972 e 1974, os serviços de informação de Lisboa estimavam em cerca de 7.500 os combatentes que enfrentavam na Guiné. Pouco mais de 5.000 integrariam o exército popular, enquanto outros 2.000 fariam parte das forças armadas locais.
Haveria 2.800 homens a combater na chamada Inter-Região Norte e 2.500 na Inter-Região Sul. O maior contingente (1.230 homens) enfrentava as forças portuguesas na zona Buba/Quitafine.
As dificuldades de comunicação entre as várias chefias militares e entre elas e a direção do partido, sediada em Conakry, repetiram-se ao longo da luta armada. Foi preocupação constante de Amílcar Cabral subordinar os militares aos políticos. Não foi tarefa fácil.
Havia mais problemas. O cansaço de guerra atingiu muitos combatentes. O PAIGC chamava os jovens ao combate apelando ao dever cívico e patriótico. Os guerrilheiros não eram pagos nem tinham um tempo de serviço contratado. Viviam com dificuldades e alimentavam-se mal.
A colocação dos militares em áreas distantes das suas moranças originava dificuldades de adaptação. “No Gabu, mais de 40% dos efetivos abandonaram as suas unidades, saindo à procura do caminho para regressar às suas casas”. Os dirigentes do PAIGC procuraram contornar este problema passando a distribuir preferencialmente os combatentes pelas suas regiões de origem.
Embora, numa guerra de guerrilha, o número de soldados revolucionários, distribuídos por unidades de grande mobilidade, seja sempre muitas vezes inferior ao número de efetivos dos exércitos regulares, que combatem mais fixados a posições defensivas, nem sempre o recrutamento de voluntários para o PAIGC correspondeu às expectativas dos seus dirigentes.   

    


sexta-feira, 31 de maio de 2013

            
                              AMÍLCAR CABRAL

                                 XLVII

          A COLABORAÇÃO INTERNACIONAL E O ARMAMENTO
                               
                              
                               
Os exércitos regulares normalizam o seu armamento de forma a utilizarem sempre os mesmos tipos de munição e a facilitarem a trocas de peças. O PAIGC tinha de aceitar o que lhe ofereciam. Os seus guerrilheiros utilizaram, por exemplo oito tipos diferentes de pistolas-metralhadoras. Entre elas, a PPSH-41, de calibre 7,62 e com tambor para 71 munições, fornecida pela União Soviética, ficou conhecida como "costureirinha", devido ao som que produzia ao disparar.
Marrocos e a Checoslováquia foram os primeiros países a fornecer material de guerra ao PAIGC. Com o decorrer do tempo, as ajudas diversificaram-se. Acabou por ser a União Soviética quem disponibilizou o apoio mais valioso.
O PAIGC instalou um depósito de material de guerra na República da Guiné, mas nunca dispôs de grandes reservas de armamento. As armas e as munições chegavam quando calhava. O reabastecimento era irregular. Ocasionalmente, os combatentes puderam contar apenas com as munições contidas nos carregadores das armas individuais.
Era preciso fardamento. O Egito ofereceu uniformes às primeiras unidades de guerrilha.
Cuba contribuiu com instrutores de artilharia que deram formação num campo de treino militar instalado pelo PAIGC em Sili, na zona de Biambe.
Em 1973, já perto do fim do conflito, um relatório do Comité de Libertação da OUA, enumerava as necessidades de material de guerra do PAIGC para o ano seguinte. A lista incluía artilharia de longo alcance, material de transmissões, mísseis terra-ar portáteis, viaturas blindadas, vedetas rápidas, barcos de borracha para os rios, minas aquáticas e navios de longo curso para ligações com as ilhas de Cabo Verde. Não terá chegado tudo, mas o preço teria de ser elevado. Não poderia seria suportado pela soma dos orçamentos anuais (nos dias de hoje) do conjunto dos estados da Guiné e de Cabo Verde. Havia quem investisse nas independências.
Entre o armamento ao dispor do PAIGC existiam diversas armas antiaéreas, foguetões, metralhadoras pesadas, espingardas Kalashnikov de calibre 7,62 mm, lança-rockets, canhões sem recuo, morteiros, viaturas anfíbias, carros de combate e uma grande variedade de minas (antipessoais, anticarro e aquáticas).
O foguetão GRAD calibre 122 era uma variante portátil do Katyusha, passível de ser lançado por um único tubo. O lançador de foguetes múltiplos Katyusha foi utilizada pelo Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial. Era disparado a partir de multilançadores transportados por camiões ou tratores. Foi apelidado na época de "Órgão de Estaline" pelas tropas alemãs. A sua precisão nunca foi grande. Eram necessários muitos foguetes para destruir um objetivo. No entanto, os disparos sucessivos assustavam o inimigo. O GRAD foi o míssil mais utilizado nos ataques por foguetões na Guiné. O seu alcance variava entre os 10.000 e os 20.000 metros.
 Os mísseis terra-ar SAM-7 Strella tinham chegado nesse ano. Abateram vários aviões e helicópteros portugueses, precipitando o final dos combates, a demissão de Spínola e a revolução de Lisboa.
O PAIGC não chegou a dispor de aviação eficaz. Estiveram na União Soviética, a frequentar cursos de pilotagem, cerca de trinta militares seus.






terça-feira, 28 de maio de 2013


                   AMÍLCAR CABRAL

                           XLV

 MOVIMENTOS NACIONALISTAS DA GUINÉ E DE CABO VERDE

               A CONQUISTA DA LIDERANÇA




É comprida a lista dos movimentos, uniões e partidos criados para promover as independências da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. A multiplicidade ilustra a euforia de uma época em que a epidemia das nacionalidades atingiu os melhores intelectuais africanos. Havia muita gente com ambição de vir a ocupar lugares de relevo nas terras de origem, na região equatorial da África. 
O tempo pôs à prova todas estas organizações. Umas tantas desapareceram. Outras adaptaram-se, associaram-se e sobreviveram. A História fez a seleção. A ajudar a tecer a História esteve cedo a mão de Amílcar Cabral. Conversou, persuadiu, conspirou, deu passos adiante e atrás, sem nunca perder de vista os objetivos que perseguia.
Tentaremos pôr alguma ordem nesse enredo complexo. Já referimos algumas organizações independentistas de tendência pan-africana, como o CEA, o MDCP, o Movimento Unitário Anticolonial (MAC) e a Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional das Colónias Portuguesas (FRAIN). Passamos a enumerar os movimentos, frentes e partidos que pretendiam a independência de Cabo Verde e da Guiné. Poderão faltar alguns na nossa lista.


     BNGB – Bloco dos Nativos da Guiné-Bissau, 1965.
     BDG – Bloco Democrático da Guiné, 1965.
     FUL – Frente Unida de Libertação, 1962.
   FLING – Frente de Libertação para a Independência da Guiné. Chefiada por Henry Labery, foi fundada em Dakar em 1963 e resultou da aliança da UPG com o MLG (Dakar), UNPG, MLG (Bissau), RDGA e UPLG.
     FNLG – Frente Nacional de Libertação da Guiné, liderada por Ibraima Djaló.
     MLICV – Movimento de Libertação das Ilhas de Cabo Verde.
     MLG (Bissau) – Movimento de Libertação da Guiné.
     MLG (Dakar), chefiado por François Mendy.      
     MLGCV – Movimento de Libertação da Guiné e Ilhas de Cabo Verde.
    PAI – Partido Africano para a Independência.
    PAIGC - Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde. Em Conakry, o PAI acrescentou duas letras à sua sigla para se diferenciar doutro partido senegalês com o mesmo nome e passou a chamar-se PAIGC.  
     PDG – Partido Democrático da Guiné Portuguesa, dos mandingas de Farim.  
     O PELUNDENSE, dos manjacos de Pelundo.
  RDAG - Reunião Democrática Africana da Guiné (provavelmente uma secção da RDQ).
     UDC – União Democrática Cabo Verdiana, fundada em 1959.
     UNGP – União dos Naturais da Guiné Portuguesa, fundada em 1963.
     UPG – União das Populações da Guiné, fundado em 1958.
     ULPG – União Popular de Libertação da Guiné, fundada em 1963.
     UPICV – União das Populações das Ilhas de Cabo Verde.
     URGP - Union des Ressortissants de Guinée Portugaise.

Eram muitas as organizações e demasiados os protagonistas. Houve abraços, separações, intrigas, calúnias, convergências e desentendimentos.
     Por volta de 1961, não parecia claro para muitos o rumo a dar a uma Guiné-Bissau liberta do domínio português. O território do país estava encostado ao Senegal e à Guiné-Conakry. Havia, naturalmente, os partidários da união ao Senegal, como o MLG (Dakar), maioritariamente constituída por manjacos, e os que se pretendiam juntar a Conakry, como o MLGCV. A UNGP, liderada por Benjamim Pinto Bull, defendia a autonomia em ligação com Portugal. Em 1963, os seus representantes seriam expulsos da conferência constitutiva da Organização da Unidade Africana, acusados de traírem a África.       
       Algumas dessas frentes e movimentos foram fundados pelo próprio Cabral. Aconteceu assim com o MLGCV (Movimento de Libertação da Guiné e Ilhas de Cabo Verde), criado em 1959, em Dakar, a partir do MLG. Destinava-se a marcar lugar face a outras organizações existentes e a disputar os apoios internacionais.
Oficialmente, o PAIGC foi fundado em Bissau, em 1956. A data, os intervenientes e as circunstâncias são discutíveis. Pouco importa. As nações precisam de mitos e os mitos não se compadecem com imprecisões de datas.
Seria o MLG de Dakar o primeiro a desencadear a luta armada, no norte da Guiné, a 17 de julho de 1961.
Após uma reunião em Dakar com Rafael Barbosa, Amílcar Cabral redigiu o Programa e os Estatutos do PAIGC. Simultaneamente, Cabral assumiu a direção do MLGCV, com estruturas tanto em Dakar como em Bissau. O MLGCV, que para alguns continuava a ser apenas MLG, era necessário, uma vez que o PAIGC não estava ainda implantado no território guineense.
Voltaram a acentuar-se as divergências entre cabo-verdianos e guineenses no seio do MLG–MLGCV. Ocorreu uma cisão e foram feitas denúncias à PIDE. Vários militantes foram presos e o MLG ficou debilitado. O mal de uns é o bem de outros. A implantação do PAIGC ficou facilitada. O partido desenvolveu-se, primeiro em Bissau e depois no interior, em boa parte devido ao trabalho clandestino de Rafael Barbosa. Entre novembro de 1960 e março de 1962, Barbosa fez distribuir no interior do território milhares de panfletos e aliciou cerca de meio milhar de jovens para a escola de quadros que o PAIGC abrira em Conakry.
Amílcar Cabral tinha uma noção clara da importância da unidade para a luta de independência e multiplicou os esforços destinados a consegui-la. Preocupava-o sobremaneira a existência de organizações étnicas. Ouçamo-lo:
       A maior asneira que se podia fazer na nossa terra seria criar na Guiné partidos ou movimentos na base de etnias, o que era um meio bastante bom, não só para o inimigo nos dividir ainda mais, durante a luta, mas também para garantir a sua vitória; a destruição da nossa independência, depois da luta, como os camaradas têm visto em alguns países africanos.
Muitas iniciativas tomadas no sentido da unidade falharam. Os movimentos sediados em Dakar ainda estavam mais divididos que os que se tinham instalado em Conakry.
Em marco de 1961, Cabral propôs a realização em Dakar de uma conferência das organizações nacionalistas da Guiné e de Cabo Verde. Dois meses depois, foi possível reunir uma comissão preparatória da conferência. Estiveram representados, além do PAIGC, o MLGC (Dakar), o MLGCV ( Conakry) e o MLGCV (Zinguinchor). A conferência teve lugar entre 12 e 14 de julho. Foi nela criada a Frente Unida de Libertação (FUL), que pouco tempo iria durar. Sobre ela, escreveria mais tarde Amílcar Cabral:
        Quando o nosso Partido entrou em contacto com o exterior do país, a partir de 1960, sentiu que havia gente da nossa terra, quer da Guiné, quer de Cabo Verde, que tinha criado os chamados movimentos fora da terra. 0 nosso Partido teve que fazer uma concessão, teve que dar um passo atrás na sua ideia de só um Partido e nada de frente, para ver se juntava aquela gente, para lutar pela independência da Guiné e Cabo Verde. Por isso mesmo é que, por um lado, fizemos uma chamada Frente com o Movimento de Libertação da Guiné e Cabo Verde que estava em Conakry mas que os nossos próprios camaradas criaram já ligados ao PAIGC, e com o Movimento de Libertação da Guiné e Cabo Verde que estava em Ziguinchor. Resolvemos lançar um apelo para a unidade de todos os Movimentos de Libertação da Guiné e Cabo Verde. O PAIGC chamou todos aqueles que diziam que eram movimentos para nos unirmos. Fizemos uma conferência em Dakar com o então Movimento de Libertação da Guiné e Cabo Verde, que estava em Dakar e que englobava tanto guineenses como cabo-verdianos, no qual estavam fulanos que vocês conhecem; não vale a pena torná-los importantes citando os seus nomes aqui. Para essa conferência também foi esse movimento de Ziguinchor e o Movimento de Libertação da Guiné e Cabo Verde que estava em Conakry, assim como o PAIGC representado por alguns dos seus membros. Tudo isso foi fundamentalmente uma concessão da nossa parte, uma tática, para vermos o que é que aquela gente queria de fato, qual era a sua intenção, até que ponto estavam engajados na luta a sério e se de fato queriam lutar ou se queriam apenas arranjar lugares. Praticamente, nós é que fizemos a conferência toda. Levamos documentos bem preparados, e eles, encarregados de preparar a conferência, nem sequer tinham ainda feito o programa. A conferência foi feita de fato, com a assistência das autoridades senegalesas, com a assistência do camarada Marcelino dos Santos, representando a CONCP, e de outras entidades. O ponto de vista do nosso Partido foi defendido com força pelos seus representantes, apoiados pelos movimentos de libertação da Guiné e Cabo Verde de Conakry e Ziguinchor. Claro que o objetivo dos de Dakar não era fazer a unidade, era o de acabar com o PAIGC; essa é que era a sua ideia e, quando viram que não era possível, aceitaram todas as resoluções apresentadas na Conferência. Mas logo a seguir começaram a sabotar.
Os países vizinhos e a OUA exerceram as suas influências procurando a unidade. Os instrumentos mais poderosos de pressão eram de índole financeira. Foi-se criando consenso em redor da ideia de fazer depender a ajuda internacional dos resultados obtidos no terreno. Nesse sentido, foi criada uma missão de “Bons Ofícios”, integrada por representantes da República da Guiné, Senegal, Argélia, Congo-Leopoldville e Nigéria. Deveria analisar a situação de todos os movimentos de libertação das colónias portuguesas e aconselhar os que deveriam ser apoiados.
A missão de “Bons Ofícios” virou-se primeiro para Angola e considerou a FNLA o único movimento que merecia ajuda. O MPLA ficaria de fora até 1968.
Em Julho de 1963, ao saber da aproximação daquela missão, Amílcar Cabral mandou abrir nova frente de luta no norte do território. Serviria para combater, fora da Guiné, a influência da rival FLING. Esta frente também não perdeu tempo. Valia tudo, na luta pelo dinheiro vindo de fora. Apressou-se a divulgar comunicados em que reivindicava uma série de ataques às forças coloniais. Felizmente para os militares portugueses, a maioria dessas ações armadas ocorreu apenas no papel.
O PAIGC estava em boas condições para ser reconhecido. Era ele quem fazia quase todo o esforço de guerra contra Portugal. No entanto, o conflito da Guiné interessava aos países limítrofes. Enquanto o Senegal apoiava a FLING, a Guiné-Conacry protegia o PAIGC. O conselho de ministros da OUA acabou por não reconhecer qualquer das organizações.
Amílcar Cabral desistiu de vez da criação de frentes e fez o PAIGC seguir o próprio percurso. A opção revelou-se adequada. A unidade possível (e suficiente) realizou-se através da luta armada. Todas as outras organizações ficaram pelo caminho. Apenas em 1965, quando a OUA enviou uma missão militar em visita às zonas controladas pelos guerrilheiros no interior do território guineense, o PAIGC receberia o apoio formal das nações de África. 

quarta-feira, 1 de maio de 2013


                    AMÍLCAR CABRAL                          
                                    XX

                A ZONA NORTE


                              
 Em 1966, como a guerrilha na zona norte, na área de Morés, era menos intensa e eficaz do que nas zonas sul e leste, Amílcar Cabral decidiu ampliar aquela frente de combate. Deslocou mais combatentes para a região e pediu à República do Senegal que incrementasse o seu apoio. Luís Cabral foi nomeado responsável pelas ligações com os homens de Senghor.
 Morés, situada nas florestas do Oio, no Centro-Norte, é habitada pelos Oincas, um subgrupo de mandingas com reputação de coragem e tradição de resistência às tropas coloniais. Já Teixeira Pinto, na segunda década do século XX, encontrara dificuldades em os dominar. A vegetação e o relevo ajudavam os guerrilheiros. 
 Morés tornou-se a base mais importante do PAIGC na zona norte. Foi um dos pontos em que se tornaram evidentes algumas das insuficiências de preparação dos guerrilheiros, nomeadamente no relacionamento com as populações locais. Osvaldo Vieira era o chefe do setor e Inocêncio Kani o responsável pela base. O excesso de disciplina imposto aos combatentes e às populações foi reprovado pelo secretário-geral e pelo seu meio-irmão Luís Cabral.
 Para realçar a importância da frente norte na estratégia do PAIGC, Amílcar Cabral deslocou-se à tabanca de Djagali, na margem esquerda do rio Farim, a 4 de Junho de 1966 e fez ali um comício. As tropas coloniais dispunham de informadores. Erraram por um punhado de horas. Às seis da manhã do dia seguinte, a aviação portuguesa arrasou Djagali, matando alguns civis. O líder do PAIGC já não se encontrava no local.
 Convinha ao partido publicitar no estrangeiro a sua luta. O jornalista italiano Piero Nelli teve oportunidade de filmar uma emboscada ao inimigo, encomendada de propósito. O combate foi filmado na estrada Mansoa-Mansabá, onde se efetuavam trabalhos de alcatroamento, protegidos pelo exército português.
 As armas e munições que chegavam à Região Norte tinham de passar pelo Senegal, que ia criando algumas dificuldades burocráticas à guerrilha guineense. Assim, enquanto parte do material era levado de forma legal e acompanhado por escoltas militares senegalesas, outra parte era contrabandeada como se se tratasse de mercadoria. A partir da fronteira, as armas e munições eram transportadas por colunas de militares que escolhiam trilhos escondidos para não serem detetados pela aviação portuguesa. Ainda assim, as munições faltavam pontualmente.
 A zona norte serviria de palco para um acontecimento que sobressaiu de entre os múltiplos dramas da Guerra da Guiné. A partir do final de 1988, os serviços secretos de Spínola tentaram aproveitar o descontentamento e o desânimo de alguns líderes locais do PAIGC para os convencer a trocar de fardamento. Seriam integrados nas forças armadas coloniais. Entre meias verdades e meias mentiras, informação e desinformação, armou-se a teia em seriam apanhados alguns oficiais superiores do Exército Português. 




      
      
      
       

segunda-feira, 29 de abril de 2013


                                                             
                                       AMÍLCAR CABRAL

                                              XVIII

      OS MANUAIS DE GUERRILHA




Tanto os responsáveis pela luta de libertação como os oficiais portugueses conheciam bem os manuais chineses e cubanos de guerrilha. Conta-se que Amílcar Cabral, já em 1959, após o massacre de Pijiguiti, mandara os seus militantes abandonar as cidades e as vilas da Guiné e procurar abrigo no mato ou nos países vizinhos. Por essa altura, não teria ainda lido os textos de guerrilha de Mao Tse Tung. Após a repressão de greves e manifestações nas grandes cidades Mao retirou os seus militantes dos centros urbanos e deu início à Grande Marcha.
Significativamente, foi a Academia Militar de Nanquim que recebeu os que haviam de ser os primeiros guerrilheiros do PAIGC e lhes proporcionou treino militar.  
Anos mais tarde, Cabral declarou a um jornalista da revista Tricontinental que, em matéria de guerrilha, não era preciso inventar nada. Bastava aprender com os combatentes chineses, cubanos, vietnamitas e argelinos, que tinham enfrentado com êxito exércitos convencionais. A verdade é que todos esses guerrilheiros foram beber inspiração a Mao.
A experiência cubana, expressa no pequeno manual de Che Guevara A Guerra de Guerrilha, publicado em 1960, logo a seguir à tomada de Havana, apresentava algumas inovações em relação aos textos do presidente chinês. Demonstrara-se que um grupo de revolucionários, ainda que intelectuais e vindos do exílio em países estrangeiros, era capaz de combater até à vitória. A guerrilha desencadeava uma dinâmica própria, propensa a atrair o apoio das populações. Era o que Régis Débray designava por “teoria do foco”.
A importância de Cabral como dirigente de um partido empenhado numa guerra de guerrilha advém da forma como apreendeu o essencial das reflexões dos seus antecessores e os aplicou à realidade específica da Guiné.
As características geográficas do território foram aproveitadas com habilidade. As florestas densas das zonas ribeirinhas dificultavam o progresso dos militares europeus, que passavam a constituir alvos fáceis quando se deslocavam em zonas de vegetação rasteira. O sul do país apresentava mais obstáculos naturais. Foi aí que começaram os combates. Para mais, era o “chão” dos balantas. Dizia-se que nas cartas geográficas portuguesas vinham representadas todas as curvas dos rios da Guiné, mas que só os habitantes locais lhes conheciam a profundidade e os vaus.
O PAIGC começou como um partido de quadros. Assentava numa pequena burguesia de funcionários administrativos, maioritariamente cabo-verdianos. Muitos deles tinham começado por trabalhar na Guiné como auxiliares das autoridades coloniais. Com o começo da guerra, a esse núcleo juntou-se um grupo crescente de guineenses urbanos com pouca instrução, originários em boa parte de Bissau. O terceiro pilar do partido foi constituído por camponeses entre os quais sobressaíam os balantas e os mandingas, enquanto a etnia fula fornecia a maior parte dos efetivos das tropas africanas que combateram ao lado dos portugueses.