DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.
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quarta-feira, 12 de junho de 2013

                                         
                             AMÍLCAR CABRAL

                                        LIV

 O RECONHECIMENTO INTERNACIONAL





A figura de Amílcar Cabral pode, como outras, ser olhada de pontos de vista diferentes que conduzirão a apreciações desencontradas. Homem do seu tempo, procurou sempre ver mais adiante, nem que fosse com a mirada do sonho. Conhecia, contudo, a realidade da sua terra e da sua época e assentava nelas os seus projetos.
      A 20 de dezembro de 1961, as tropas indianas puseram fim à ocupação portuguesa dos territórios de Goa, Damão e Diu. O Império Colonial Português começava a desmoronar-se.
      No final do ano seguinte, Amílcar Cabral seria recebido pela Comissão das Nações Unidas que tratava da descolonização.
      Com o sucesso da luta armada, os sinais de reconhecimento internacional foram-se multiplicando. O Brasil ofereceu bolsas de estudo a militantes nacionalistas das colónias portuguesas. Leopold Senghor concedeu asilo político aos cabo-verdianos e guineenses exilados. Amílcar Cabral foi nomeado conselheiro técnico do Ministro da Economia Rural da Guiné-Conakry. O engenheiro voltava a estar empregado.
Em relação à política externa, Cabral soube sempre distanciar-se do conflito sino-soviético e manter uma posição de não-alinhamento que lhe permitiu continuar a receber ajudas dos dois lados. Em termos de política interna, foi capaz de conservar o partido relativamente afastado das questões teóricas que dividiam o campo socialista.
      O tempo foi passando. No início de 1972, o PAIGC declarou publicamente que controlava dois terços do território da Guiné-Bissau. No Conselho de Segurança das Nações Unidas, reunido em Adis-Abeba, em fevereiro de 1972, Amílcar Cabral pôde afirmar: «a situação na Guiné é comparável à dum Estado soberano que tem certas partes do seu território nacional ocupadas por forças armadas estrangeiras».
      Numa reunião em Rabat, a Organização da Unidade Africana reconheceu aos movimentos de libertação das colónias portuguesas o estatuto de observadores nas suas reuniões. No mesmo ano, uma comissão da ONU visitou as zonas libertadas da Guiné-Bissau. No regresso, declarou que o PAIGC era o único representante legítimo dos guineenses. Em agosto, uma reunião plenária do Comité Especial para o Colonialismo reiterou essa declaração.
Ainda nesse ano, em outubro, Amílcar Cabral discursou perante a Quarta Comissão da Assembleia Geral da ONU. Solicitou a aceitação dos delegados do PAIGC como membros associados ou observadores em todos os organismos especializados da ONU. Apelou ainda ao «desenvolvimento de uma ajuda concreta destes organismos especializados, sobretudo da UNESCO, da UNICEF, da OMS e da FAO, ao povo guineense».
      Em dezembro de 1972, o secretário-geral do PAIGC Amílcar deslocou-se pela última vez a Moscovo. O objetivo da viagem era conseguir armamento antiaéreo moderno que pudesse atingir os aviões a jato Fiat e dificultar a atuação dos helicópteros da força aérea portuguesa
        Amílcar Cabral foi abatido a tiro por camaradas seus, a 20 de janeiro de 1973. No dia seguinte, os assassinos foram esquartejados. Eram todos guineenses.
        O PAIGC pôs rapidamente de lado as divergências e deu um salto em frente. Os mísseis soviéticos Strela, recentemente introduzidos no combate, puseram rapidamente fim à supremacia aérea portuguesa. Foram lançadas ofensivas decisivas contra as forças coloniais. A vitória da guerrilha estava à vista.

                      

quinta-feira, 9 de maio de 2013


                    AMÍLCAR CABRAL
                                  
                                   XXVIII

    CABRAL E A DIPLOMACIA  


                                
A guerra travava-se na Guiné mas decidia-se lá fora. Os camponeses balantas e mandingas nunca poderiam ganhar vantagem duradoura nos combates com o exército português se não fossem equipados e armados pela solidariedade doutros países. Amílcar Cabral entendeu isso cedo. Passava muito tempo fora de Conakry. Desdobrava-se em entrevistas, aproveitava todas as ocasiões de ser recebido por altas personalidades estrangeiras e não perdia uma oportunidade de discursar em organizações internacionais.  
Curiosamente, essa dedicação produtiva às relações exteriores nem sempre era bem entendida e o secretário-geral era criticado pelo seu partido por passar demasiado tempo longe do país.
Cabral deslocou-se três vezes ao estrangeiro em 1966 e 31 em 1972. Nem tudo corria bem nas matas da Guiné. As campanhas agrícolas não deram os resultados esperados e era preciso alimentar os guerrilheiros. Faltava dinheiro para assegurar o funcionamento do partido e para comprar combustível. Tudo dependia da boa vontade internacional.
O PAIGC tinha razões de sobra para estar contente com a Organização da Unidade Africana (OUA), que atribuíra ao partido a exclusividade da representação dos nacionalistas de Guiné e de Cabo Verde.
 As vicissitudes da luta armada tornavam conveniente a diversificação do apoio concedido. A OUA organizou uma Missão Militar, integrada por oficiais provenientes do Senegal, da República da Guiné, de Marrocos e da Mauritânia. O objetivo oficial da Missão era tomar conhecimento direto das realidades das várias frentes de combate abertas contra as tropas coloniais.
A visita ficou assinalada por alguns incidentes. Na Zona Norte, depois de abandonar a base de S. Domingos, a Missão presenciou um bombardeamento na região de Djagali. Os militares passaram a noite seguinte na tabanca de Maqué. Rebentou ali perto uma mina antipessoal colocada por soldados africanos do exército português, tendo morrido um auxiliar de enfermagem. Os elementos da Missão visitaram escolas do MPLA e testemunharam a destruição das tabancas de  Morés e Candjambari.
No começo do ano de 1968, o Comité de Libertação da OUA reuniu em Conakry. Aprovou uma moção de encorajamento à guerrilha e apelou ao reforço do apoio internacional ao PAIGC.
Entre junho e julho de 1970, realizou-se em Roma a Conferência Internacional de solidariedade para com os povos das Colónias Portuguesas. Estiveram presentes 177 organizações de 64 países. No dia 1 de julho, à margem da conferência, o Papa Paulo VI recebeu em audiência no Vaticano Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos.
Esta audiência representou o reconhecimento oficial dos Movimentos de Libertação da Guiné, Angola e Moçambique pela Igreja Católica e criou um estado de crispação entre o Governo Português e a Santa Sé. Na conferência de imprensa realizada imediatamente após o encontro com o Papa, Cabral apressou-se a apelar aos católicos portugueses para que deixassem de apoiar a política colonial do regime.
A Igreja Católica tivera sempre vistas largas e tencionava permanecer em África para além do colonialismo. Em 1970, um sacerdote negro foi nomeado bispo auxiliar de Luanda, contra o parecer da igreja portuguesa. Em junho do mesmo ano, Paulo VI cumpriu a visita agendada a Fátima mas não passou por Lisboa.
Em alguns textos de Amílcar Cabral, parece evidente a sua visão marxista-leninista do mundo. Na intervenção que fez em Havana em 1966, a quando da Conferência Tricontinental, o secretário-geral do PAIGC questionou a dinâmica da formação das classes e a interpretação das forças motoras da História. A meu ver, não se tratava de rotura com a interpretação aceite, mas sim do seu enriquecimento. Amílcar Cabral agregava à teoria leninista as suas reflexões sobre experiência colhida das revoluções africanas. De modo voluntário, ou não, Cabral apresentava-se como um teórico marxista.
No entanto, Amílcar Cabral era um líder pragmático. Acima do seu modo pessoal de olhar o mundo, colocava sempre os interesses da luta revolucionária. Embora tenha sido apoiado, desde o início da missão a que dedicou a sua vida, pelos países do bloco socialista, não tardou a piscar o olho aos americanos. Aos nacionalistas importava mais a qualidade e o valor da ajuda prestada que a sua proveniência. O PAIGC recebia apoio humanitário de organizações não-governamentais americanas, mas não estabelecera contactos com representantes oficiais do Pentágono.
Em 1970, Cabral visitou os EUA para participar na cerimónia dedicada à memória de Eduardo Mondlane, organizada pela Universidade de Siracusa. Mondlane fora assassinado no ano anterior.
Raramente a diplomacia será inocente ou meio ingénua. Os Estados Unidos não queriam perder influência em África.
O congressista Charles Diggs defendia há muito a tese de que os movimentos nacionalistas africanos se tinham encostado à União Soviética mais por razões materiais do que por consonâncias de ideologia. A América distanciara-se voluntariamente do processo e perdia, por isso, possíveis amigos em África.
 Amílcar Cabral foi recebido por um grupo de congressistas americanos e expôs as suas razões. As portas da imprensa americana (e logo da opinião pública) e os cofres da Administração começaram a abrir-se à causa da independência da Guiné-Bissau.  Juntou-se o tio Sam ao Vaticano.
Em 1972, com o objetivo de favorecer o reconhecimento do PAIGC pela comunidade internacional, a Comissão de Descolonização da ONU enviou uma missão à zona libertada do sul da Guiné. Foi a primeira vez que a bandeira das Nações Unidas foi içada no território de uma colónia africana que combatia pela sua independência. Estavam criadas as condições para a declaração unilateral de independência da Guiné-Bissau.