DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.
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segunda-feira, 20 de maio de 2013


                     AMÍLCAR CABRAL           

                            XXXVII

                       FÉRIAS EM CABO VERDE


Amílcar Cabral passou férias em Cabo Verde, em 1949. Foi precedido por chuvas abundantes que interromperam a seca de quatro anos que lançara muita gente na miséria e originara outra leva de emigração. O poeta cantou a chuva e os seus benefícios. 

                REGRESSO

Mamãe Velha, venha ouvir comigo
O bater da chuva lá no seu portão.
É um bater de amigo
Que vibra dentro do meu coração

A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,
Que há tanto tempo não batia assim...
Ouvi dizer que a Cidade-Velha
– a ilha toda –
Em poucos dias já virou jardim...

Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esp’rança
Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.
– É a tempestade que virou bonança...

Durante as férias, escreveu um artigo a que chamou “Algumas considerações acerca da chuva”. Propunha a intensificação das políticas destinadas a combater a seca “dentro da comunidade do Mundo Português”. Poderá ter abordado o tema de forma prudente, tendo em conta o público-alvo, mas fica a ideia de a sua opção nacionalista não estar ainda amadurecida.
Cabral não foi um iluminado. Falamos de um homem que foi capaz de aprender e de evoluir ao longo da vida. Antes de ser revolucionário, foi reformador. Como seu pai, terá começado por admitir que o progresso económico do arquipélago e a melhoria das condições de vida dos ilhéus seriam possíveis no enquadramento colonial. Essa ideia parece confundir os seus seguidores. Uma parte do que foi escrito sobre as férias de Cabral em Cabo Verde no ano de 1949 deve ser lida sob reserva.
O governador Carlos Roçadas, médico militar, tinha tomado posse algum tempo antes. Fundou o Boletim de Informação e Propaganda de Cabo Verde, em que tanto Juvenal como Amílcar Cabral vieram a colaborar. À exceção do primeiro texto, escrito na cidade da Praia, os artigos de Amílcar foram enviados de Lisboa. Defendia, como outros, que as secas constituíam mais um problema político que meteorológico. Para as combater, sugeria a preparação de um projeto global em que a construção de diques e barragens fosse complementada com a arborização de áreas específicas com espécies selecionadas.
Durante as férias, Amílcar Cabral não se limitou a colaborar na imprensa escrita. Escreveu alguns textos sobre agricultura para a Rádio de Cabo Verde. O terceiro (e último) destes artigos era claramente politizado. Tratava da similitude entre as culturas cabo-verdiana, afro-brasileira e afro-americana, sugerindo que os cabo-verdianos estavam mais chegados a essas comunidades negras que à população do continente português. Era a Negritude a piscar o olho. O programa foi interrompido. 
Cabral terá ainda tentado organizar um curso de alfabetização de adultos. Não terá sido autorizado. De qualquer forma, não o teria podido administrar. O período de férias era curto. Para mais, adoeceu, antes de regressar a Lisboa.

quinta-feira, 16 de maio de 2013



                              AMÍLCAR CABRAL
                 
                                    XXXI

            AS ORIGENS. JUVENTUDE EM CABO VERDE




      O pai de Amílcar Cabral reassumiu, em maio de 1932, as funções de professor, tendo sido colocado em Mansoa. A situação profissional instável e as pressões da madrinha puxavam-no para Cabo Verde. Quando foi punido, por razões que se desconhecem, com uma pena de suspensão de quinze dias de vencimento, Juvenal pediu a aposentação por invalidez e, em Novembro desse ano, instalou-se com a família nova e os três filhos trazidos da Guiné (Amílcar, Armanda e Arminda) em Achada Falcão, no município de Santa Catarina, ilha de Santiago. Assumiu as funções de administrador das propriedades de Simoa, com a herança à vista.
Amílcar Cabral acompanhou o pai.
A mãe ficou mais um ano na Guiné. No regresso, depois de algumas disputas, conseguiu a custódia dos filhos.
       Em data que não ficou registada, Juvenal herdou os bens da madrinha. A crise que assolou as ilhas e as questões com a hipoteca depressa o devolveram à pobreza.
       Não se sabe onde fez Amílcar Cabral a instrução primária. Poderá ter começado a estudar em Bissau. É possível que o pai lhe tenha dados explicações. O miúdo passou cerca de um ano em Achada Falcão. Tanto ali como na vizinha Santa Catarina existiam, à data, escolas primárias. Terá estudado na cidade da Praia em 1933 e 34, não se sabe se no ensino oficial, doméstico ou particular. Terá concluído o ensino primário em 1936/37. Entrou para o liceu no ano seguinte (1937/1938), com os 13 anos exigidos por lei. A partir dessa altura, as informações registadas permitem seguir regularmente o seu percurso escolar.
       O Liceu Gil Eannes era o único existente em Cabo Verde. Quem ia das outras ilhas estudar para S. Vicente, alojava-se em casa de familiares ou em pensões mais ou menos improvisadas. Iva não tinha lá família que pudesse albergar o filho, nem dinheiro para pagar o alojamento. Mudou-se para o Mindelo, com as crianças.
        Curiosamente, dias depois do começo das aulas, o liceu foi extinto por Decreto-Lei e chegou a estar fechado durante algum tempo. A intenção do governo da Metrópole era transformá-lo numa escola prática de agricultura, pesca, artes e ofícios. A pressão dos pais dos alunos fez recuar as autoridades coloniais.
    O currículo escolar da altura girava em redor da Portugalidade. O objectivo era levar os miúdos cabo-verdianos a acreditarem que eram tão portugueses quanto os da Metrópole. 
       Alguns anos mais tarde, Amílcar Cabral iria escrever: Nunca fui português. Gosto muito de Portugal e do povo português. Houve um tempo na minha vida em que eu estava convencido que era português, porque assim é que me ensinaram, eu era menino. Mas depois aprendi que não.
      A influência do pai e da mãe na formação intelectual do futuro líder do PAIGC terá sido limitada. Amílcar era mais chegado à mãe. “Marcou a sua maneira de estar no mundo e a sua conduta social”. Do pai terá herdado a tendência para as letras e o hábito de pensar pela própria cabeça.
       Foi sempre bom aluno e começou cedo a escrever poesia. Em 1942, um poema seu intitulado “1º de dezembro” foi classificado em primeiro lugar num concurso liceal. As suas qualidades de liderança deram cedo nas vistas. Amílcar foi sempre chefe de turma. Em 1940 – 41 foi presidente da Associação Desportiva do Liceu do Mindelo. Ajudou ainda a organizar o teatro do liceu.
       O pai foi-se distanciando. Mudou-se para a Praia, por volta de 1943. Em Abril de 1954, regressou à Guiné, na companhia do filho Ermelindo. 

terça-feira, 30 de abril de 2013


                   
                         AMÍLCAR CABRAL

                                       XIX


                    REALIDADE

                   (Excertos de um texto de Amílcar Cabral)

Uma coisa muito importante numa luta de libertação nacional é que aqueles que dirigem a luta nunca devem confundir aquilo que têm na cabeça com a realidade. Pelo contrário, quem dirige uma luta de libertação nacional deve ter muitas coisas na cabeça, cada dia mais, tanto a partir da própria realidade da sua terra, como da realidade doutras terras, mas ele deve medir, fazer planos, respeitando a realidade e não aquilo que tem na cabeça. Isso é muito importante, e o facto de não o respeitar tem criado muitos problemas na luta de libertação dos povos, principalmente em África. Eu posso ter a minha opinião sobre vários assuntos, sobre a forma de organizar a luta, de organizar um Partido, opinião que aprendi, por exemplo, na Europa, na Ásia, até mesmo talvez noutros países de África, nos livros, em documentos que li, com alguém que me influenciou. Mas não posso pretender organizar um Partido, organizar uma luta de acordo com aquilo que tenho na cabeça. Tem que ser de acordo com a realidade concreta da terra.
         A nossa realidade geográfica, ainda, é que a Guiné na sua quase maioria, não tem nenhuma montanha, nenhuma elevação, (só para os lados do Boé é que tem algumas colinas, com o máximo de 300 metros de altura) e Cabo Verde são ilhas vulcânicas e montanhosas. Mesmo nesse aspeto vemos que um completa o outro. Uma terra não tem nenhuma montanha e a outra é toda de montanhas.
         Isso também tem grande importância, não só na sua economia, como na vida social, cultural etc., que podemos encontrar na vida do nosso povo.
         Na Guiné, terra cortada por braços de mar, que nós chamamos rios, mas que no fundo não são rios: Farim só é rio para lá de Candjambari; o Geba só é rio de Bambadinca para cima e por vezes mesmo para lá de Bambadinca há água salgada; Mansoa só é rio depois de Mansoa para cima, já a caminho de Sara, perto de Caroalo; Buba, esse não é rio de lado nenhum, porque até chegarmos a terra seca, é só água salgada; Cumbidjã, Tombali, são todos braços de mar, a não ser na parte superior com um bocadinho de água doce na época das chuvas, sobretudo o rio de Bedanda, que vem a Balama buscar água doce. O único rio de fato a sério, na nossa terra, é o Corubal. Esta é uma realidade muito importante para nós, porque se, por um lado, temos muitos portos para entrar na nossa terra, com barcos, por outro lado podem ver o perigo que isso representa para nós.
       Se a nossa economia fosse desenvolvida, quer dizer que o nosso povo seria também culturalmente mais forte do ponto de vista moderno, com mais escolas, mais liceus, capaz de trabalhar com morteiros, canhões e até com aviões. Os comandantes seriam mais capazes de entender todos os problemas de estratégia, de tática e poderiam todos trabalhar com mapas.
A realidade cultural da nossa terra, em Cabo Verde, (pondo agora a questão dos colonialistas que não nos deixaram avançar muito) é o resultado do fato de os colonialistas terem deixado estudar os cabo-verdianos, na medida em que precisavam de gente para fazer agentes do colonialismo, como utilizaram os indianos. Como os ingleses também utilizavam os indianos na colonização, e os franceses utilizavam os daomeanos, assim também os portugueses utilizaram os cabo-verdianos, instruindo um certo número.
        Na Guiné, a cultura do nosso povo é o produto de muitas culturas da África: cada etnia tem a sua cultura própria, mas todas têm um fundo igual de cultura, a sua interpretação do mundo e as suas relações na sociedade. E sabemos que embora haja populações muçulmanas, no fundo eles também são animistas, como os balantas e os outros. Acreditam em Ala, mas também acreditam nos «irãs» e nos «djambacos ses». Têm Alcorão, mas também têm o seu «gri-gri» no braço e outras coisas. E o sucesso do Islamismo na nossa terra, como na África em geral, é que o Islão é capaz de compreender isso, de aceitar a cultura dos outros, enquanto os católicos querem acabar com isso tudo rapidamente só para crerem na Virgem Maria, na Nossa Senhora de Fátima e em Deus Nosso Senhor Jesus Cristo.

sexta-feira, 12 de abril de 2013






                                AMÍLCAR CABRAL

                                  III
                 CABO VERDE

Em Cabo Verde, nos últimos meses, não há notícias escaldantes a explorar. Escolhemos duas que nos parecem ter algum significado, tanto atual como prognóstico.

A SEMANA, primeiro diário cabo verdiano em linha, em 9/4/2013.
FITCH BAIXA RATING DE CABO VERDE DE ESTÁVEL PARA NEGATIVO
A agência Fitch baixou rating de Cabo Verde de estável para negativo, o que torna o país menos atrativo para os investidores. Esta perspetiva negativa constitui também mais um obstáculo no acesso ao crédito internacional, numa altura em que se aproxima o término da transição para País de Rendimento Médio, alcançado em 2008.
O crescimento do PIB cabo-verdiano foi mais fraco do que as previsões. A estimativa é agora de 2,6%, em lugar de 5,1%. O défice orçamental subiu de 9,5 em 2012 para 12,3 em 2013. A expansão da base tributária em 2013, com a introdução de vários impostos, foi neutralizada pelos aumentos dos custos de salários públicos, bens e serviços.

A SEMANA (também a 9/4/2013)
FERNANDA MARQUES ABRE CONFERÊNCIA SOBRE MEIO AMBIENTE
Fernanda Marques, Ministra da Educação e Desportos, abre esta quinta-feira, 04, a 2ª edição da Conferência Nacional Infanto-Juvenil  pelo Meio Ambiente, no Salão Josina Machel do Liceu Domingos Ramos, cidade da Praia.
O Ministério da Educação e Desporto pretende desenvolver nos sistemas de ensino a preocupação com o ambiente, em especial com as mudanças climáticas e a proteção do ambiente costeiro e marítimo.

As preocupações parecem radicalmente diferentes em cada um dos países apreciados. Aceitamos que a escolha das notícias possa ser criticada. No entanto, não procurámos influenciar os leitores, mas apenas fornecer-lhe termos de comparação. Apesar da pobreza do território e do flagelo das secas, a República de Cabo Verde é uma das democracias mais amadurecidas de África. As estatísticas permitirão uma comparação mais aproximada das duas realidades.
Superfície – 4.000 quilómetros quadrados
População – 500.000 habitantes
Economia – A agricultura é frágil. Cerca de 90% dos produtos alimentares consumidos são importados. As exportações de pescado são reduzidas. Os serviços (comércio, transportes e serviços públicos) formam cerca de 70% do PIB. As remessas de emigrantes constituem perto de 20% do PIB. O turismo contribui de forma crescente para a formação de riqueza no arquipélago. O número de visitantes anuais já ultrapassou o da população local. Entre 2000 e 2009, o PIB cresceu anualmente cerca de 7%.
Rendimento per capita – 3.947 dólares (International Monetary Fund, 2011)
Saúde – A população cabo-verdiana é das mais saudáveis de África. A prevalência da SIDA e da malária são relativamente baixas.
Expectativa de vida ao nascer - 77.7  anos para o sexo feminino e 70,5 para o masculino.
Mortalidade materna (número de mortes de mãe por cada 100.000 nados vivos) – 79 (Fonte: CIA, World Factbook na Wikipedia).
Mortalidade infantil até 1 ano, por 100.000 nados-vivos - 26,02 (Estimativas da CIA World Factbook, na Wikipedia).

Seriam a Guiné – Bissau e Cabo Verde muito diferentes do que são hoje se Amílcar Cabral não tivesse existido? A dúvida permanece. Muitos historiadores retiram importância às individualidades no desenrolar do processo histórico. Escreveu Julião Soares, guineense e biógrafo de Amílcar: tornou-se moda, no decurso das últimas décadas, menorizar o papel das lideranças na formação da História, processo que envolve necessariamente o contributo de grandes massas populares. Sendo fútil reduzir o processo histórico à enumeração dos chefes e dos seus feitos, será limitativo ignorar o papel de alguns líderes que souberam interpretar claramente as aspirações dos seus povos em determinados períodos e acelerar ou lentificar as mudanças em curso.

quarta-feira, 10 de abril de 2013


                      AMÍLCAR  CABRAL

       A UTOPIA      
                             I
                 INTRODUÇÃO

 É costume dizer-se que as árvores se reconhecem pelos frutos. A luta a que Amílcar Cabral dedicou a sua vida esteve na origem do nascimento de dois países, em lugar da nação única que o sonhador pretendeu construir.
 Embora a História não detenha os seus passos, os trinta e nove anos decorridos sobre as independências permitem fazer análises com algum distanciamento. Eu e o Leston Bandeira combinámos, há alguns meses, escrever a meias um livro sobre a vida e a obra de Amílcar Cabral.
 Como tinha de ser, fui preparando a minha parte do trabalho, Tive, contudo, dificuldade em imaginar maneira eficaz de abordar o tema. As biografias estão feitas e algumas têm grande qualidade. O recurso à ficção pareceu-me difícil e desajustado do projeto.
 Ocorreu-me há dias uma estratégia diferente para me aproximar de Amílcar Cabral. Trata-se de escrever uma série de artigos, um pouco detrás para a frente, embora sem respeitar rigorosamente a cronologia. Poderemos intercalar escritos do próprio e dos seus adversários com apontamentos históricos e biográficos e ainda com as nossas opiniões pessoais, que não terão necessariamente de coincidir. Temos vivências substancialmente distintas. Une-nos o facto de, enquanto europeus, partilharmos um grande amor a África.
     Recorreremos a excertos dos textos de Amílcar Cabral, abreviando-os quando parecer necessário, mas tendo o cuidado de nunca lhes modificar o sentido. 
       Um projeto assim presta-se a ir sendo publicado enquanto se progride. O tamanho dos capítulos que imaginei adapta-se ao formato de blogue. Irá começar assim. No final, há de valer a pena reuni-los em suporte de papel. 
      Os eventuais leitores poderão assistir ao nascimento de um livro e colaborar nele com comentários.  

                                                           António Trabulo