DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

domingo, 20 de março de 2016


CRÓNICAS DE CUBA

VI

CUBANA DE AVIACIÓN

Confesso que senti um certo medo dos Antonov ao serviço da companhia cubana da aviação, quando me lembrei dos velhíssimos automóveis americanos que fazem parte da imagem de marca de Havana. Reconfortei-me pensando que os aparelhos seriam mais novos e haviam de ter uma manutenção tão cuidada como a da TAP de antigamente, com excesso de pessoal, mas com competência garantida.



A minha confiança relativa sofreu algum abalo quando, depois de todos os passageiros terem ocupado os seus lugares no avião que nos iria transportar a Santiago de Cuba, o comandante nos mandou sair, por questões técnicas. 
A demora não foi grande. Lá seguimos viagem.
No regresso a Havana, tínhamos de mudar do terminal 1 para o 3, para apanhar a ligação para Madrid, às 21.50. A distância é considerável e o percurso tem de se fazer de táxi.
O avião que nos havia de levar às 18.00 aterrou no aeroporto de Santiago às 19.35. Entrámos a bordo às 20.15. A viagem demora 75 minutos. A perda da conexão estava garantida, a menos que o voo da Air Europa se atrasasse também.
Em Havana, uma das nossas malas foi das últimas a sair do tapete rolante. Quando saímos, já não havia táxis. A porta do terminal doméstico do aeroporto fechou-se nas nossas costas. Ficámos à espera, no passeio, onda havia ainda outro casal de retardatários. Lá apareceu outro táxi velho com tejadilho, onde nos enfiámos, os quatro mais a bagagem. Seguimos apertados até ao terminal 3, por onde os outros passageiros não pretendiam passar. O voo para Madrid atrasara-se realmente, mas partira momentos antes.



Talvez algum dos leitores se tenha encontrado alguma vez num aeroporto grande, cheio de luzes e de lojas abertas, em que é, durante um certo tempo o único passageiro. É uma sensação estranha, quase irreal, mas não sofro de agorafobia. Perguntei pelo escritório da Cubana de Aviación e dirigi-me a uma porta fechada. Bati. Lá me atendeu um empregado ensonado. Expus-lhe a situação. Ouviu-me, analisou a questão e declarou que eu não tinha direito a nada. A companhia aérea cubana apenas se responsabilizava pelos atrasos nas conexões de voos e não nas ligações. Confesso que o meu espanhol não alcança tais preciosismos de linguagem. Ficou, contudo, claro que o culpado pelo problema em que nos encontrávamos lavava dali as suas mãos e nos deixava entregues a nós próprios.
Procurámos a Air Europa, também de porta cerrada. O funcionário  abriu e inscreveu-nos para o voo do dia seguinte, à mesma hora. Teríamos de pagar 175 C.U.C. cada. C.U.C. são pesos convertíveis para uso dos turistas e valem, ao câmbio oficial, um pouco mais que o dólar americano. O uso simultâneo de ambas as moedas presta-se a confusões e abusos. Chegaram a cobrar-me, por uma refeição, 24 vezes mais do que pedem a um nacional, mas esse procedimento está longe de constituir regra.
Na ausência de partidas ou chegadas próximas, não se encontrava qualquer táxi na zona do terminal 3 do aeroporto de Havana. Voltámos para dentro, dispostos, eventualmente, a passar a noite nas cadeiras disponíveis.
Já se encontrava uma mulher do guiché das informações. Devia ter-se ausentado por um curto espaço de tempo, pois a primeira coisa que eu tinha feito ao chegar fora procurá-lo. Contactou um senhora que alugava quartos ali perto e que nos viria buscar.
Em Cuba, vive-se em parte de esquemas, ao modo de Luanda.
Dormimos em casa da Senhora Ana Maria, que completa o orçamento familiar adaptando dois quartos da moradia em que vive, junto ao aeroporto, a pensão informal. Ao começo da noite seguinte, voámos para Madrid. 
     Já em casa, enviei uma mensagem electrónica  à companhia aérea cubana, explicando a situação e pedindo o reembolso das despesas a que o atraso do seu voo me obrigara. A resposta foi:

Debe escribir a la agencia donde compró el billete para que atiendan su solicitud de reembolso.

Já o fiz e aguardo a resposta.
       Cubana de Aviación, nunca mais!



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