DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sábado, 19 de março de 2016


CRÓNICAS DE CUBA

V

SANTIAGO



Santiago de Cuba é uma cidade em que os edifícios centrais estão recuperados e bem pintados. Não partilha com Havana o aspeto de nobreza decadente. O movimento da povoação de meio milhão de habitantes centra-se na Praça de Marte e em Enramadas.
Enramadas é uma rua interdita ao trânsito automóvel. Não é larga e, a horas convenientes, os edifícios que a marginam proporcionam uma sombra protetora contra o impiedoso sol de Santiago. Há inúmeros estabelecimentos comerciais pequenos ou até diminutos. Alguns não passam de um par de cordéis com roupas penduradas à entrada dos prédios.


A maioria das casas de comércio vende bebidas. Não lhes faltam fregueses. Abundam as lojas de gelados, muito populares entre os da terra. Estão na moda os churros recheados com uma variedade de doces. Não existe na longa rua um café ao estilo europeu.
Passámos por um casal de saltimbancos. O homem golpeava freneticamente um par de tambores enquanto a dançarina volteava. Aproximámo-nos. A mulher era magra e velha para a profissão – teria deixado os cinquenta anos lá para trás. Executava piruetas improváveis para a idade das suas articulações. Especializara-se, contudo, numa dança intencionalmente obscena. Deitava-se e, sem se despir, exibia a fraca anatomia numa coreografia burlesca de prostituta velha.  
Não nos detivemos e seguimos Enramadas abaixo. Quando voltámos, cerca de hora e meia depois, a mulher continuava a dançar e parecia ter ainda as pilhas carregadas. Algum descanso terá feito. De outro modo, disporia da preparação física de um atleta de alta competição.
Dá a ideia que Santiago funciona como um centro comercial para a região. Durante o dia, há sempre uma multidão a subir e a descer o o passeio pedonal. Poucos dos caminhantes são velhos e as crianças não abundam. As ruas estão cheias, nos dias de semana e durante as horas de trabalho, de pessoas em idade laboral. A ser assim, as coisas estão mal na parte ocidental na ilha de Cuba.
Algumas lojas têm filas de gente à porta. Os seguranças apenas deixam entrar umas poucas de cada vez. As prateleiras estão quase vazias. Dispõem um produto aqui e outro a três palmos de distância para reduzirem a impressão de vacuidade. A variedade de mercadorias disponíveis parece limitada. Fiquei a pensar que se tratava de lojas de produtos racionados vendidos abaixo dos preços comuns. Nos mercados de produtos agrícolas, a oferta é um pouco melhor.


Há supermercados com muito maior oferta de géneros, alguns dos quais de luxo. Neles, não há filas à porta.
Entramos numa pizzaria, pensando almoçar. Havia apenas pizzas de peixe e de salsicha.
Ao subir as Enramadas, ouvimos o som de alarmes que poderiam ser de incêndio ou de roubo. Um pouco adiante, avistámos um grupo de homens com uniformes militares. Procediam à fumigação dos esgotos e dos vãos de escadas. Desconheço o produto que eles utilizam como inseticida, mas parece fazer disparar os alarmes de incêndio. Os passantes, entre os quais nos incluímos, tiveram de atravessar a pequena nuvem de fumo químico. As autoridades sanitárias levam as questões a sério. Não me parece que o virús Zica prospere ali. Não vi um único mosquito durante a estadia. Curiosamente, as baratas são toleradas.



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