DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sexta-feira, 18 de março de 2016


CRÓNICAS DE CUBA

IV

PESSOAS

Creio que vou precisar de algum tempo para deixar assentar as ideias que Cuba despertou em mim, se é que vale a pena estabilizar conceitos sobre uma sociedade que se adivinha em vésperas de profundas transformações. A simpatia da maior parte das pessoas, a ganância de algumas, a displicência e até a soberba de quem detém uma migalha de poder e se agarra a ela como um escaravelho a uma bola de estrume, baralham-se nas minhas recordações.



O encarregado da loja de charutos e rum não mostrava jeito para o ofício. Impaciente e intolerante perante a nossa hesitação em escolhermos entre vários produtos que desconhecíamos, queixava-se de que tinha mais gente para atender. A verdade é que a loja estava quase vazia. Só havia outro casal no estabelecimento e parecia tão indeciso quanto nós. Se fosse proprietário duma loja na Europa, caminharia para a falência. Se fosse assalariado, seria despedido. Faço notar que os charutos eram caríssimos.
Domingo, tive de recorrer a uma urgência hospitalar. No hotel, indicaram-me a clínica estatal Cira Garcia. A assertividade levou-me a pensar que se poderia tratar duma unidade hospitalar selecionada para o atendimento a turistas. Desloquei-me até lá de táxi.



A clínica é pequena e tem aspeto arejado. Atravessei um corredor claro e limpíssimo até uma sala de espera com um balcão onde se encontravam duas funcionárias. Havia apenas uma pessoa sentada. Disse ao que vinha e a senhora telefonou ao médico, que tardou menos de dois minutos. Era um homem de mais de 50 anos, já com a barba a embranquecer. Disse-lhe que era colega. Atendeu-me com toda a gentileza. Finda a consulta, acompanhou-me à saída e, apesar de a clínica ser estatal, não permitiu que me cobrassem nada. Em Cuba também há cavalheiros.
Nas imediações do hotel, entrei na confeitaria Dulcineia. Deve tratar-se duma cadeia, pois encontrei várias com o mesmo nome. Estavam a sair dois fregueses e ficámos apenas nós ao balcão. Do lado de lá, movimentavam-se sete pessoas. Parte delas estaria a conferir existências. Era a hora da mudança de turno na caixa. Entrou uma senhora bem vestida que substituiu demoradamente o rolo de papel da máquina registadora. Depois, afastou-se e foi buscar um comprimido, que engoliu com água. A seguir, serviu-se vagarosamente dum café e tomou-o, como se estivesse na sua sala de estar. Os clientes não lhe importavam. Depois de esperarmos bem mais de dez minutos, saímos sem termos sido atendidos.
Em Santiago, dirigi-me a um taxista. Assentamos no preço para uma viagem de duas horas em volta da cidade. Era um homem à volta dos trinta anos, seguramente mais jovem que o automóvel que conduzia. Jovial e comunicativo, foi dando indicações ao longo do trajeto. O carro, quando abrandava a velocidade, ia-se a baixo. O problema seria da bomba de injeção de combustível. A solução encontrada pareceu-me original. O moço engatava a mudança em primeira e rodava a ignição. O motor dava um solavanco e pegava.


                                                     Porto de Santiago, visto do forte

Aos poucos, foi ganhando confiança connosco. Disse que tinha uma irmã em Miami que possuía um veículo com quinze anos que já não usava. Tinham falhado as tentativas de o trazer para Cuba. Falava com descrença na revolução. Estava esperançado na visita de Obama (que deve ir lá amanhã ou depois) e na normalização do relacionamento com o gigante americano. Por ali, as coisas estavam mal. Foi ele que me contou que havia poucos empregos e tão mal pagos que havia quem achasse que não valia a pena trabalhar. Existia muita gente que vivia de “esquemas”, à angolana, comerciando quantidades mínimas de produtos de consumo.




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