DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

quarta-feira, 16 de março de 2016


CRÓNICAS DE CUBA

III

FÉLIX

Acreditei numa elevada percentagem das histórias que Félix me contou. Constavam do seu cartão de visitas colorido as licenciaturas em Economia e em Ciências Sociais. Falava inglês, francês, alemão, russo, italiano, holandês, português, japonês, esperanto e espanhol e andava a estudar latim. Para completar o seu notável currículo de vida, tinha sido adido comercial da embaixada de Cuba em Maputo e, para se poder alimentar condignamente, era guia turístico.


Era um velho torto que dizia ter sido operado à coluna lombar e caminhava com uma velocidade estonteante. Tremia das mãos. Eu nunca tinha visto alguém bater-se com tanto descaramento, aliado a certa classe, a ser convidado para almoçar. Conduziu-nos pelas ruas e praças de Havana Velha e transportou-nos no seu velho automóvel até Cojimar, onde Hemingway fundeava a sua embarcação El Pilar. 


     O escritor americano ter-se-á inspirado num pescador local para escrever “O velho e o mar”. Numa povoação próxima, fica a casa de Hemingway em Cuba, a Finca Vigia. Por azar nosso estava fechada nesse dia, para reparações.
Félix papagueava com dias, meses e anos as datas de uma série de acontecimentos da história antiga e moderna de Cuba. Sempre detestei a profusão de datas que nenhum turista fixa. Num hotel que Hemingway teria frequentado (não há em Havana estabelecimento turístico que se preze que não reclame ter sido favorito do escritor americano) postou-se junto à parede, onde estavam penduradas as fotografias. Apontava-as com o guarda-chuva e fez questão de referir pormenorizadamente as circunstâncias de cada uma. Tentei interrompê-lo, mas não fui capaz.
Recorria aos truques habituais dos guias turísticos. Levou-nos a uma loja de charutos e a outra de pintura, onde não pretendíamos entrar e não comprámos nada. Conduziu-nos a um restaurante caro e de má raça onde partilhou a nossa mesa. Consegui depois convencê-lo de que não considerava importante visitar a estátua em tamanho real de Ernest Hemingway. Conhecer razoavelmente a sua obra bastava-me.
Mostrou-nos o Bairro Chinês, que tem a particularidade de estar vazio de orientais. Segundo Félix, as coisas em Cuba estão mal e os chineses já ganham melhor a vida na sua Pátria. A maioria regressou.
Contei-lhe que escrevia. Disse-me que lia bem o português e insistiu em dar-me a sua direção, para que lhe enviasse um livro meu. Talvez o faça e talvez não.





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