DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

terça-feira, 15 de março de 2016


CRÓNICAS DE CUBA
II
O GALO VEDADO

Vou contar a história única, autêntica e revolucionária do galo Vedado que faleceu sem honra nem glória, já avançado em anos, numa rua da cidade de Havana.
Não sendo costume meu recorrer a tantos adjetivos, vou dar algumas explicações aos leitores. Chamei-lhe “única” porque não existiu outro galo tão duro na história da República de Cuba. Apelidei-a de “autêntica” por o relato ter sido corroborado pelo testemunho da Ramonita, que era sobrinha-neta do antigo guerrilheiro Ramón Dias e se prostituía na zona por ocasião do fatídico acidente. O termo “revolucionária” é adequado, pois Dom Vedado participou ativamente na Revolução Cubana, desde os seus primeiros dias. Recuperarei, mais adiante, esta parte memorável da sua biografia. Permitam, por enquanto, que continue a falar da sua morte. 
O evento teria passado despercebido se a Ramonita não estivesse atenta ao que se passava na vizinhança do hotel que, por coincidência, tem o nome do galo. É uma rapariga vivaça, bastante escura, de dentes muito brancos e traseiro avantajado. Garantiu-me que vira elevar-se nos ares, escapando por uma janela da cozinha do hotel, uma pluma dourada, flamejante e inconfundível. Reparem que, desta vez, foi ela quem tropeçou nos adjetivos. Segundo Ramonita, não existia na ilha outro galo com plumagem comparável. 
A verdade é que, por altura do seu passamento, Vedado já tinha poucas penas. Não cheguei a conversar com esta galo ilustre, mas há seres com quem a gente estabelece relações de intimidade sem trocar muitas palavras. Pelo que soube, um pouco antes de os nossos destinos se cruzarem, ele já não dizia coisa com coisa.
Sei bem que um escritor que se preza respeita a cronologia e não começa as histórias pelo final. Conto com a benevolência dos leitores.
Vedado não passava dum franganito quando embarcou no iate Granma, juntamente com um grupo de revolucionários liderado pelos irmãos Castro e pelo médico argentino Ernesto Guevara. Cumpria o nobre propósito de alimentar a revolução. Como era pequenote e tinha fraca figura, foi deixado para o fim, enquanto via morrer tios e irmãs.
Ao desembarcar na Praia dos Colorados, Fidel olhou para o galito e, após breve hesitação, proferiu esta sentença histórica:
− Se venho aqui para que esta terra seja livre, começo por te libertar a ti.
O frango não percebeu a nobreza daquele gesto. Viu que estava a ser deixado para trás e esticou as curtas pernas para acompanhar a marcha dos revoltosos que adentravam a Sierra Maestra.
Com o tempo, desenvolveu uma reação especial com o comandante Camilo Cienfuegos e com o guerrilheiro Ramón Dias. Seguia-os para todo o lado. Quando os alimentos escasseavam e os cinturões revolucionários eram apertados alguns furos, havia sempre quem olhasse o galo com o brilho do apetite nos olhos. Um ou outro mais sôfrego começava mesmo a salivar. Nessas alturas, Vedado alargava a distância que o separava dos companheiros humanos. Sabia do provérbio que dizia “a raposa gosta tanto das galinhas quanto o galo”.


Vedado ia cheio de fervor revolucionário e de força da juventude. Contava com a proteção de Camilo Cienfuegos, que conhecia bem a natureza dos seus homens e espalhou uma pequena mentira supersticiosa:
− Quem ouvir cantar de manhã o Vedado, não morre nesse dia!
Foi assim que o galo Vedado participou na Revolução. Calhou-lhe acompanhar o primeiro grupo de barbudos armados que tomaram conta de La Havana. Assistiu à fuga dos reacionários, que eram os mais ricos e sabedores de Cuba e à ocupação das suas casas, tantas vezes belíssimas, por trabalhadores sem eira nem beira. Houve quem se deitasse em camas ainda quentes dos corpos dos que fugiam.
Por essa altura, Vedado engravidara já metade das galinhas da ilha. Pelo menos, gabava-se disso.
Era o tempo em que a revolução emprestava aos pobres uma dignidade nova, embora algumas galinhas comentassem que os que tinham ficado não sabiam fazer grande coisa nem se importavam muito com isso. Vedado encolhia as asas. Não podia dar ouvidos a conversas de mulheres. Cuba era apontada como um exemplo para o mundo. Iluminava os sonhos dos camponeses da América do Centro e do Sul e de uns tantos intelectuais europeus.
O galo não chegou a integrar a sociedade civil. Tornou-se mascote do Regimento em que Ramón Dias foi incorporado. Corriam lendas sobre os seus cânticos matinais. Havia homens valentes que confessavam terem visto a coragem reforçada pelo seu canto protetor. Vedado ganhava a vida ou, pelo menos, justificava o milho que comia, cantando, a cada içar e arriar da bandeira.
O tempo foi passando. Consta que um galo que não entra no tacho nem na grelha dura, no máximo, quinze anos. Vedado viveu muitos mais. Dizia-se que não havia em Cuba memória dum galináceo tão antigo.


Com o passar dos anos, a tinta que revestira as paredes das casas de Havana desvanecia. Os esgotos entupiam, as canalizações iam-se fazendo incompetentes, as instalação elétricas pediam conserto e os telhados começavam a deixar entrar água. Paralelamente, a esclerose do regime revolucionário ia-se tornando aparente. Havia tão pouco trabalho e tão mal pago que muitos diziam que era melhor ficar a olhar o que os outros faziam. A Pátria cubana sofria.
No Regimento, os jovens revezavam-se de tantos em tantos meses, mas os oficiais permaneciam durante bastante tempo.
Aos poucos, a Revolução foi-se tornando uma referência distante, apesar de o seu mito continuar a ser alimentado diariamente pela eficaz máquina de propaganda do Partido. O povo cubano passara a desfrutar de regalias sociais inusitadas nas Américas, como o direito aos cuidados de saúde universais e gratuitos e ao ensino também grátis, de excelente qualidade. No entanto, passava-se mal. Havia quem dissesse, a meia voz, que não fazia sentido produzir uma legião de licenciados num país em que o emprego estacionara e as possibilidades de trabalho eram quase inexistentes.
A lindíssima cidade de Havana perdeu metade da graça. Vista de longe, do Castelo de S. Salvador da Ponta, a urbe encostada ao Malecón ainda botava figura, como mulher velha olhada a distância. Quando os olhos se aproximavam, ficavam as rugas à vista. Se abria a boca, mesmo apenas para dizer “buenos dias”, via-se que lhe faltavam dentes. Alguns edifícios pareciam ter participado na guerra civil que dera a vitória aos barbudos.
Chegou a altura em que Vedado entendeu que os velhos revolucionários já não eram parte das soluções de que o país carecia, mas que se tinham tornado parte do problema. Não falou. Que podia fazer, senão cantar?
Todos culpavam os americanos, que asfixiavam Cuba com o bloqueio económico. Alguns criticavam também os soviéticos por terem deixado ir por água abaixo o esforço hercúleo desenvolvido por Lenine, Trotsky e Estaline.
Com o acumular dos anos, Vedado, que entretanto passara a ser tratado por “Dom” foi-se tornando cínico. Terá sido dos primeiros a entender que o inimigo principal da Revolução não residia no exterior do país: eram os próprios cubanos.
Pouco a pouco, Dom Vedado deixou de se preocupar com essas coisas. A verdade é que, a partir de dada altura, deixou de saber preocupar-se. Nem das artroses que lhe tolhiam os passos dava conta plena.
Os companheiros do Regimento não o abandonaram. Quando as suas dificuldades se tornaram óbvias, Dom Vedado foi internado num asilo para militares idosos. Houve problemas quando da sua admissão, pois nunca um animal assim acamaradara com guerreiros velhos, mas foram ultrapassados. Afinal de contas, Vedado era também um herói da Revolução.
A estadia no “lar” não foi pacífica. Não havia lá galinhas. Dom Vedado já se não chegava a elas, mas ainda gostava de as olhar.
Um dia, alguém se esqueceu de fechar a porta. Vedado evadiu-se e caminhou livremente durante algumas dezenas de metros. A sua vocação internacionalista foi plenamente realizada: o galo foi atropelado por um velho automóvel de chassis americano, motor checoslovaco e amortecedores chineses. Alguém lhe recolheu os restos mortais, pensando que ainda poderiam ser úteis na cozinha do hotel.



A verdade é que não cheguei a tomar conhecimento com a parte dialogante de Dom Vedado. Apresentaram-me apenas uma coxa sua, calada, frita e rija que nem corno. Não fui capaz de a trincar.

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