DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

segunda-feira, 14 de março de 2016


CRÓNICAS DE CUBA
I


Três séculos antes de Cristo nascer, Heráclito de Efeso intuiu que ninguém se poderia banhar duas vezes nas mesmas águas de um rio. As águas mudavam continuamente e as pessoas que se lavavam também. O velho que visitou agora Cuba conserva algumas coisas em comum com o jovem que saudou o triunfo da revolução cubana há mais de meio século, mas perdeu certas qualidades e ganhou outras. É, seguramente, um homem distinto. Sente-se confortável com o passado e espera que o passado seja tolerante para com ele.
Torna-se difícil fazer uma análise mais ou menos objetiva do que se apreende numa visita curta a determinado país quando existem laços sentimentais que foram muito fortes em determinada altura da nossa vida. Há tendência para exagerar, ou desculpando tudo o que está mal, ou desvalorizando o que foi bem conseguido. Não sou assim. Com as naturais limitações de tempo e a deficiência de informação, procuro ver claro. Sem preocupações de profundidade, já que se trata apenas de impressões de viagem e não de um ensaio sobre a matéria, irei expondo as ideias que formei.


Ficámos alojados no Hotel Vedado, que fica numa rua movimentada e com bastantes buracos no pavimento, próximo do extremo nascente do Malecón. Em regra, escolhemos, na Europa, hotéis de 3 estrelas e procuramos os de 4 no chamado terceiro mundo. Desta vez, nem sei bem por quê, “clicámos” num de 3.
O Hotel Vedado comemorou os sessenta anos há algum tempo. A pintura festiva permanece ao lado da porta de entrada. O estabelecimento data dos últimos anos da ditadura de Fulgêncio Baptista.
A porta do nosso quarto tem uma parte com tabuinhas, à moda da Mariquinhas. Servia para deixar circular o ar, mas foi encerrada com pregos. A fechadura da entrada, a tampa da bacia e o botão do autoclismo estão soltos. Trata-se de consertos adiados, apesar de custarem pouco e requerem baixa tecnologia. O cofre também não funciona. A sua falta é compensada com uma série de gavetas metálicas sobrepostas na receção, mas estão todas ocupadas.
A janela abre-se na fronteira do prédio. Do outro lado da rua, há edifícios degradados que servem para habitação familiar.
O pequeno-almoço é rico e variado, com uma oferta considerável de pratos e boa fruta tropical.
Durante a segunda tarde, disparou o alarme de incêndio e fez um barulho dos diabos, mesmo ao lado do nosso quarto. Apesar de ninguém parecer preocupado, descemos a pé as escadas. O funcionário da receção fingia não o ouvir e deu uma desculpa idiota: “não é o alarme, é o telefone.”
Sem ter dado por isso, escolhemos um regime de meia-pensão. Para o nosso gosto em matéria de comidas, meio português e meio angolano, a comida cubana é desenxabida. A cerveja é boa e é servida no restaurante a um preço razoável. Há música ao vivo todos os fins de tarde e começos de noite e o custo das bebidas no bar do hotel não é exagerado. 


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