DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015


CRÓNICAS DA INDONÉSIA

VIII

BALI

       A ILHA DOS DEUSES 

O que salta à vista, a quem percorre de carro as ruas dos arredores de Denpasar, incluindo a zona turística de Kuta, é a profusão de altares de pedra vulcânica negra. Ocupam os quintais e, por vezes, os terraços das moradias. 




  O seu número e o seu tamanho variam amplamente – quem é mais rico honra os deuses com ofertas mais valiosas – mas cada casa tem um à porta e outro dentro. Honram-se os deuses e os espíritos ancestrais, a quem são dadas ofertas frequentes.


  Há altares para todos os gostos e para todas as bolsas. Vão desde pequenas gaiolas de verga, muitas vezes enfeitadas com panos coloridos, até estruturas de pedra vulcânica ricamente decorada. 



  É certo que os deuses favorecem quem lhes dá oferendas maiores: os ricos vão estando cada vez mais ricos, enquanto a maioria de indonésios pobres tarda em usufruir dos benefícios económicos gerados pelo despertar da Ásia.


Bali está separada de Java por um estreito com duas milhas de largura. 
  Tem mais de quatro milhões de habitantes. Predominam largamente os balineses, embora a oferta de emprego na indústria do turismo atraia habitantes de outras ilhas. A religião mais seguida é a hindu, em contraste com a maioria muçulmana prevalecente no país. Fala-se o indonésio, o balinês e, cada vez mais, o inglês. A capital, Denpasar, está situada no sul da ilha.
Foram também António Abreu e Francisco Serrão os primeiros europeus a avistar a ilha, em 1512. Bali figura na carta marítima de Francisco Rodrigues, traçada nessa mesma data. Os navios portugueses navegavam duas vezes por ano ao longo da costa das ilhas de Sunda, a caminho das Molucas. Em 1585, um navio fundeou na Península Bukit, deixando uns tantos portugueses ao serviço do Dewa Agung, o mais importante dos nove reis da ilha.
A montanha mais elevada de Bali é o Monte Agung, ou Gunung Agung, um vulcão ativo com 3.000 metros de altura. Os terrenos vulcânicos são férteis e a chuva abundante. É nos terrenos mais planos que se estendem a sul das montanhas que se cultiva o arroz que alimenta os ilhéus. O terreno tem, contudo, de ser aproveitado e encontram-se plantações em socalcos. 


As praias da costa sul têm areia clara, enquanto as do norte são escuras.
Mais do que o norte e o sul geográficos, importam aos balineses as noções de “kaja” e “kelod”, que apenas parcialmente se confundem com esses pontos cardeais. “Kaja” é a direção do Gunung Agung, e “kelod” a do mar. Acredita-se que os deuses e os espíritos dos antigos habitam as montanhas, enquanto os demónios vivem no oceano. Assim, “kaja” identifica-se com o bem e “kelod” com as influências demoníacas. Nas habitações, os altares são colocados do lado da montanha e as zonas sujas viram-se para o mar.


                                   Vulcão Kintamani

A proximidade do Equador torna o clima de Bali quente e húmido, com temperaturas que pouco variam ao longo do ano. A época das monções dura de outubro a abril. Chove muito, sobretudo entre dezembro e março.  


                               Templo de Taman Ayun

Bali constitui um destino turístico muito procurado. As praias, os templos e a cultura atraem gente de todas as partes do mundo, com predomínio de australianos. Seguem-se, atualmente, os chineses, que ultrapassaram em número os japoneses. A ilha faz parte do Triângulo de Coral, a região marítima do mundo com maior biodiversidade. Os seus recifes são muito procurados para mergulho ou para snorkeling.



Em 2002, extremistas islâmicos detonaram uma bomba na área turística de Kuta (onde se situa o nossos hotel) matando 202 pessoas, na maioria turistas estrangeiros. Seguiu-se um atentado de menores proporções, em 2005. O turismo foi severamente abalado, tendo recuperado progressivamente anos mais tarde. Já ultrapassou o nível alcançado antes dos rebentamentos. Sempre foi mais fácil destruir do que construir. Explosões como a que se verificou há dias na Tailândia afastam os visitantes estrangeiros e empurram para a pobreza as centenas de milhar de habitantes locais que se ocupam na indústria turística. É ela que faz de Bali uma das regiões mais prósperas da Indonésia. Antes dos atentados, o turismo sustentava cerca de 80% da economia da ilha.
Com o crescimento, a área turística de Kuta passou já a fazer parte de Denpasar. Ubud, situada ao norte da capital, é o centro cultural da ilha.


                        Templo Goa Gajah (Gruta do Elefante)

Os artesãos de Bali são famosos e têm uma produção diversificada. Fazem tecidos de batik e ikat, esculpem a madeira e a pedra, trabalham a prata e pintam. As orquestras de percussão animam as representações teatrais que retomam os temas épicos hindus à maneira balinesa.


                                Dança de Barong e Kris

Persiste em Bali um sistema de castas que derivou do indiano e tende a desvanecer-se. As divisões são quatro. 93% da população pertence à casta Sudra, a dos camponeses. Seguem-se, na hierarquia, as castas dos comerciantes e funcionários administrativos, a dos aristocratas e guerreiros e a dos clérigos, os Brahamanes.


Ganexa, deus do sucesso e da sabedoria. Partiu um dente ao escrever o livro sagrado Mahabharata.


O hinduísmo balinês está longe de ser puro. É um sincretismo em que o panteão de deuses e semideuses hindus convive com divindades locais animistas e com figuras budistas. Deuses e deusas estão presentes em quase todas as atividades. Qualquer elemento da natureza possui uma força própria, que reflete o poder sobrenatural. As rochas, as árvores, as adagas e as vestes podem abrigar espíritos capazes de chamar o bem e o mal.

                                    Templo Ulun Danu

Com perto de 20.000 templos e santuários, Bali é chamada a ilha dos mil templos, ou ilha dos deuses.

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