DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015


CRÓNICAS DA INDONÉSIA

V

JOGYAKARTA, BOROBUDUR 

E PRAMBANAN

   Jogyakarta é única província indonésia ainda governada por um sultão. O nome da cidade também se escreve (e pronuncia) Jogjakarta. Tem pouco mais de meio milhão de habitantes e muitas universidades de prestígio. O custo de vida relativamente baixo atrai estudantes de todo o país, o que faz dela, de certo modo, uma Coimbra do arquipélago. A juventude estudantil vem de muitas ilhas, trazendo para a cidade uma profusão de etnias, usos, dialetos e religiões. Desconheço a proporção de raparigas em cursos superiores.
O guia gaba-se da abrangência dos javaneses, predispostos a aceitar diferenças, lidar com elas e integrá-las. Segundo ele, os javaneses são também os mais cultos e educados do país. Foram de Java todos os presidentes da Indonésia e nasceram e foram criados na ilha quase todos os políticos conhecidos. Não diz que são também os mais inteligentes, mas deixa a ideia no ar. Claro que o guia é javanês.
A cidade localiza-se num dos lugares de Java com maior atividade sísmica e tem sido abalada por terramotos e erupções vulcânicas. O abalo telúrico de 27 de maio de 2006 arrasou mais de 300.000 casas e provocou mais de 6.000 mortos. Quatro anos depois, o vulcão do Monte Merapi entrou em erupção, matando 353 pessoas e cobrindo de cinzas algumas aldeias vizinhas e o templo de Borobudur.
À noite, liguei a televisão e procurei um canal com noticiário em língua inglesa. Não o encontrei, mas deparei com dois canais religiosos islâmicos. Fiquei sem saber se servem aquele credo em exclusividade ou se dispõem apenas de determinados tempos de antena.
Quase todas as mulheres com quem me cruzo na rua usam o véu islâmico. Julgo encontrar, ainda assim, sinais de evolução social. Muitas motorizadas são conduzidas por raparigas. As motorizadas poderão desempenhar um papel significativo no difícil trajeto que há de conduzir à igualdade de direitos dos dois sexos.
Jogyakarta serviu-nos de placa giratória para aceder a Borobudur e Prambanan. São estes monumentos que fazem da cidade o lugar turístico mais procurado do país, a seguir a Bali. O pouco que vi das suas ruas deixou-me a impressão duma cidade limpa e organizada.


Borobudur é o maior templo budista do mundo e está situado a cerca de 40 quilómetros a noroeste de Yogyakarta. É a principal atração turística da Indonésia. A sua história é curiosa. A construção foi iniciada no século VIII, a mando dos reis da dinastia Sanjaya, para o culto de deuses hindus. Mudaram tempos e vontades e foi concluído pelos reis da dinastia budista Sailendro, que o adaptaram à sua fé. A rocha vulcânica (andesito) utilizada na construção foi retirada dos rios da vizinhança. O templo foi usado para o culto budista desde o século X até ao século XV, altura em que a dominação islâmica de Java levou ao seu abandono. Borobudur foi envolvido pela selva. A introdução do Islão na Indonésia foi abençoada por grande parte da população, já que a nova fé pregava direitos iguais para todos os crentes, contrariando a estratificação social tradicional.


Curiosamente, foram os ingleses, que apenas dominaram a Indonésia durante quatro anos, que o redescobriram. Borobudur encontrava-se em mau estado de conservação, tendo crescido grandes árvores nos seus terraços. Foi recuperado graças a um programa de reconstrução promovido pela UNESCO. O monumento foi completamente desmontado, como se de um puzzle se tratasse. Cada pedra foi marcada, tratada e reposta no local inicial. A intervenção durou cerca de uma década e custou 25 milhões de dólares. Os trabalhos terminaram em 1983.


     Borobudur foi construído em três andares sobre uma colina que lhe serve de suporte. Tem dez terraços sobrepostos. O templo assenta numa base piramidal com cinco terraços quadrangulares concêntricos que sustentam um cone truncado com três plataformas circulares. O edifício é coroado por uma cúpula monumental em forma de sino. As paredes e as balaustradas estão decoradas com baixos-relevos magníficos. Em redor da cúpula central dispõem-se 72 cúpulas menores, com janelas. Cada uma contém uma estátua de Buda. O acesso ao cume do edifício faz-se através de escadarias.


A estrutura arquitetónica do templo de Borobudur obedece à conceção budista do universo. A base piramidal representa o “kamadhatu”, a esfera em que estamos sujeitos aos nossos desejos. Os cinco terraços quadrados correspondem ao “rupadhatu”, a esfera em que começamos a pôr de lado os nossos desejos mas ainda estamos ligados a nomes e formas. Finalmente, as três plataformas circulares e a grande cúpula ilustram o “arupadhatu”, a esfera em que se perdem os nomes e as formas. A ideia de uma montanha organizada em terraços simboliza o esforço budista para atingir o Nirvana através da renúncia pessoal.


     Os baixos-relevos narram as fases progressivas do caminho da alma para a redenção e também episódios da vida do Buda. As esculturas têm uma extensão somada de seis quilómetros. São consideradas o conjunto mais perfeito e completo de perfeito de baixos-relevos budistas em todo o mundo. As imagens inscritas nas paredes fazem sentido se forem lidas da direita para a esquerda, tendo sido preparadas para a circulação dos peregrinos no sentido dos ponteiros do relógio.



O complexo do Borobudur compreende ainda dois templos menores que representam igualmente fases do caminho para o Nirvana.
Borobudur foi construído três séculos mais cedo que Angkor Vat, no Camboja, e 400 anos antes de surgirem na Europa as primeiras grandes catedrais.


O conjunto dos templos de Prambanan situa-se no centro da ilha de Java, dezena e meia de quilómetros a leste da cidade de Yogyakarta. Em 1991, a UNESCO inclui-o na sua lista de Património Mundial. Trata-se de 240 edificações religiosas edificadas no século IX e divididas em vários complexos, dos quais Loro Jonggrang, hindu e Sewu, o maior agrupamento de templos budistas existente na Indonésia, são os mais importantes. O nome atual provém da vila próxima de Prambanan.
Mais uma vez, foram os ingleses que, durante o curto período em que dominaram Java, se aperceberam da extraordinária importância histórica e cultural do complexo de templos de Prambanan. Os holandeses conheciam-nos e usavam esculturas dali retiradas para a decoração de jardins, enquanto os javaneses utilizavam as pedras para as suas construções.
Loro Jonggrang é um dos maiores e mais belos conjuntos de templos hindus do sudeste Asiático. A sua construção data do século IX e foi provavelmente iniciada pelo rei Rakai Pikatan e continuada pelos seus sucessores. Os templos foram dedicados à Trindade hindu: Brahma, o deus criador, Vishnu, o protetor e Shiva, o destruidor. Aos poucos, foram sendo construídas centenas de templos menores em redor dos edifícios centrais.
Loro Jonggrang data do século IX e foi desenhado com a forma de três quadrados concêntricos. O quadrado interno contem 16 templos, entre os quais se contam três obras-primas da arquitetura hindu, dedicadas à trindade de deuses principais.


A arquitetura é típica das construções religiosas hindus, com cones elevados e muito decorados. Julga-se que o complexo do templo foi habitado, no seu apogeu, por centenas de brâmanes com os seus discípulos.
No século XVI ocorreu um grande terramoto que fez desmoronar as edificações. As pedras das ruínas foram mais tarde utilizadas para demarcar a fronteira entre os sultanatos de Yogyakarta e Surakarta.
A restauração do complexo teve início em 1918 e prolongou-se, com intermissões, até 1990.  Nessa altura, as aldeias e as plantações de arroz da vizinhança foram transformadas num parque arqueológico, enquanto o mercado próximo foi suprimido. Atualmente, é um dos lugares turísticos mais visitado da Indonésia. As obras de restauração ainda hoje prosseguem, não sendo possível reconstruir os templos menores, de que só existem as fundações, pelo facto de muitas pedras terem sido retiradas para construções distantes.
Os templos voltaram a sofrer danos significativos com o terramoto de 2006. Em tempos recentes, a comunidade hindu recuperou os edifícios para as suas cerimónias rituais.


Com 47 metros de altura, o templo dedicado a Shiva é o maior do complexo. Está decorado com baixos-relevos esculpidos nas paredes internas das balaustradas que o cercam. As esculturas de pedra contam a história de Ramayana, um príncipe cuja esposa, Sita, foi raptada pelo rei demónio Ravana e resgatada com a ajuda do rei macaco Hanuman.


Para entender o enredo, os visitantes devem entrar pelo lado leste e circular no sentido dos ponteiros do relógio. O santuário de Shiva contém várias câmaras, uma das quais abriga uma estátua do deus com três metros de altura.


Os outros dois templos principais são dedicados respetivamente a Brahma e a Vishnu. Junto a eles, foram erigidos três templos mais pequenos dedicados aos animais que transportam os deuses: o touro para Shiva, a águia para Brahma e o cisne para Visnu.
A menos de um quilómetro do conjunto hindu de Loro Jonggrang situa-se Sewu, o segundo maior templo budista da Indonésia, a seguir a Borobudur. A edificação central é rodeada por templos menores. São notáveis os quatro pares de estátuas de Dwarapala, os guardiões dos portões, representados como guerreiros gigantes e assustadores.


Entre Sewu e Loro Joggrang situam-se três outros templos em ruínas que integram também o conjunto de Pranbanam: Lumbuna, Burah e Asu. No total, Pranbanam conta com cerca de 500 edificações religiosas.

                     Grupo VIPAM em Borobudur

Nota: a primeira fotografia de Borobudur, a primeira de Prambanan e a imagem do Dwarapala foram retiradas da Internet. 

Sem comentários:

Enviar um comentário