DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015


CRÓNICAS DA INDONÉSIA

IV

JACARTA

Jacarta fica situada na baía que tem o mesmo nome, na costa noroeste da ilha de Java. É atravessada por mais de uma dezena de pequenos rios, dos quais o mais importante é o Ciliwung. Administrativamente, a capital da Indonésia é uma província com estatuto especial. Tem um governador e está dividida em cinco municípios. A antiga Batávia situa-se na Jacarta do Norte, junto ao porto de Tanjung Priok.
A vizinhança entre prédios elevados e luxuosos e habitações modestas e baixas, construídas com materiais improvisados, faz lembrar Luanda. O calor, a humidade elevada e alguma neblina ajudam a recordar a capital angolana no tempo do cacimbo.
Da janela do meu quarto de hotel, avisto uns tantos minaretes. O templo mais próximo é pequeno e modesto e está pintado a branco e verde. 



     Tem um belo minarete de seis andares encimado por uma cúpula com revestimento metálico. Um pouco mais longe, situa-se uma mesquita moderna, com uma cúpula branca iluminada à noite por luz doirada. O seu minarete é alto e delgado e termina quase em agulha. Soube depois que era a mesquita de Istiqlal, a maior do Sudeste Asiático. Foi construída para celebrar a independência do país. Istiqlal é uma palavra árabe que significa “independência”.




Salta à vista na cidade a indisciplina do trânsito. O sistema de transportes públicos é insuficiente e, nas horas de ponta, o tráfico nas ruas da cidade congestiona-se. Circula uma grande quantidade de motorizada. Os peões atravessam as ruas de forma um tanto anárquica. Aliás, parece estar presente um pouco de anarquia, ou pelo menos de desorganização, em diversos aspetos da vida da urbe.
Pouco caminhei pelas ruas de Jacarta. Mostraram-nos a cidade das janelas do autocarro. As exceções foram um templo chinês ardido, o Museu Nacional, o Parque de Miniaturas e o Monumento Nacional.
Uma visita breve ao Museu Nacional deixou-nos um conjunto muito agradável de impressões. O museu teve origem no final do século XVIII, quando um grupo de intelectuais holandeses se organizou com o objetivo de promover a investigação em vários aspetos da cultura indonésia. Foi inaugurado oficialmente quase um século mais tarde (em 1868) e é popularmente conhecido na cidade como “edifício do elefante”, por ter um elefante de bronze no seu pátio dianteiro, ou por “casa das estátuas”.



O Museu Nacional dispõe de uma coleção riquíssima da arte indo budista da Indonésia antiga. Várias estátuas de Buda trazidas de Borobudur estão expostas no átrio central do edifício. No segundo piso do museu são exibidas as coleções de tesouros arqueológicos e etnológicos.
O museu alberga uma das maiores e mais completas coleções de cerâmica chinesa antiga existentes fora da China.
O Museu Nacional dispõe ainda de uma coleção notável de artefactos da idade da pedra, incluindo crânios e esqueletos fossilizados de Homo erectus, Homo floriensis e Homo sapiens.



Em 1891 foi descoberto em Java um dos primeiros espécimes de Homo erectus. O autor da descoberta deu-lhe o nome de Pithecanthropus erectus. Um segundo exemplar, mais completo, foi encontrado depois em Sangiran, perto de Solo, também na ilha de Java. Até se encontrarem restos humanos no vale Great Rift, no Quénia, estes foram os vestígios mais antigos de hominídeos conhecidos, estimando-se a sua idade em 700.000 anos. Considera-se hoje que os nossos antepassados diretos foram as populações africanas de Homo erectus e não os asiáticos “homens” de Java e Pequim.
O Monumento Nacional Indonésio é um obelisco de cimento armado com 130 metros de altura, situado no meio dum parque. Tem mais interesse para os naturais do arquipélago que para os turistas.



O Taman Mini Indonésia Indah, que se traduz por “Maravilhoso Parque Miniatural da Indonésia” é uma espécie de “Portugal dos Pequeninos” megalómano. Ilustra a arquitetura tradicional das 26 províncias indonésias, com representação de múltiplas atividades da vida diária. Dispersa-se por pavilhões separados em que as vestes, as roupas, as danças e as tradições são representados com todo o cuidado. Pretende ser uma sinopse da cultura indonésia.



Percorremos algumas ruas estreitas para visitarmos um pagode queimado, evitando as motorizadas que circulavam nos dois sentidos. 



     O templo era modesto. Fora devorado pelo fogo, meses atrás. Exibia-se, num compartimento de dimensões limitadas, uma escultura que escapara ilesa e estava a ganhar fama de santidade.



Ao lado do templo queimado, havia umas instalações com um letreiro a dizer “kepala”. Imaginei que se tratava de uma corruptela de “capela” e entrei. Encontrei, de facto, três pequenas capelas, aparentemente construídas a mando de familiares de defuntos que pretendiam honrar as suas memórias e demostrar o próprio bem-estar económico. Já em Setúbal, pude verificar que “Kepala” não significa “capela”, mas sim “cabeça”.


Os indonésios aproveitaram os grandes edifícios deixados pelos colonos holandeses para instituições governamentais ou para museus. Contudo, as inúmeras casas comuns da época colonial, capazes de testemunhar de forma duradoura a multiculturalidade da cidade, foram deixadas ao abandono. O centro histórico da velha Batávia tem um aspeto desolador. As janelas com tabuinhas que refrescavam as habitações antes da invenção do ar condicionado enfeitam agora prédios em ruínas. Muitas casas estão devolutas e algumas arderam. É mais fácil construir de novo do que reparar o velho e o país tem, seguramente, outras prioridades para o investimento estatal ou privado. As velhas casas holandesas vão ruindo, uma a uma. Algum dia, a geração vindoura de indonésios lamentará a perda da oportunidade de restaurar o património de tempos idos, tão valorizado para o enriquecimento turístico de outras cidades. Será tarde para muitos edifícios.
Mesmo olhando de longe, constata-se que existem duas Jacartas: a dos ricos e a dos pobres. Embora haja zonas de ricos e de pobres, coexistem em alguns bairros a opulência e a miséria. 



     À semelhança do que acontece noutros países em fases rápidas de crescimento, encontram-se, lado a lado, prédios modernos de muitos andares e aspeto luxuoso e habitações de dois pisos a rondar a miséria. 



     Persistem problemas graves na recolha do lixo e na drenagem dos detritos humanos. É para os rios que se atira o lixo e se drenam as urinas e as fezes, já que as casas pobres não dispõem de instalações sanitárias nem estão ligadas à rede de esgotos. É nesses mesmos rios imundos que as pessoas se banham, como pudemos ver do autocarro. Algumas ruas tristes de Jacarta aliam a miséria à sordidez. Os pobres são muito pobres e os ricos muito ricos.





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