DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

domingo, 16 de agosto de 2015

                                            
            CRÓNICAS DA INDONÉSIA 

                               I

           O AEROPORTO DE ISTAMBUL







Em viagens internacionais, as mudanças de avião redundam vezes demais em estadias de muitas horas nas zonas de transferência dos grandes aeroportos de escala.
Meio século atrás, a Europa assistiu ao desvio para ocidente, em direção aos Estados Unidos da América, da supremacia económica, com a consequente deslocação para o outro lado do Atlântico dos centros de poder e decisão. Em anos recentes, a Ásia despertou da sua sonolência de centenas de anos e o velho continente viu ser-lhe cortada outra talhada do melão dourado. Mesmo quem viaja pouco pode constatar a importância crescente dos aeródromos do médio oriente, como Dubai e Istambul. Há um par de anos, aboborei no Dubai. Calhou agora chatear-me em Istambul.
Os aeroportos modernos são os sucessores das mala-postas, onde se trocavam as mulas, ou dos caravançarais, em que pernoitavam os camelos e os seus donos. Quem viajava por mar ansiava pelo calor dos portos de abrigo. Não serve de consolo lembrar que viagens como estas duravam anos e implicavam perigos e sacrifícios doutra dimensão. Aborrecemo-nos à mesma.
O aeroporto de Istambul, por onde eu tinha entrado e saído da Turquia anos atrás, pareceu-me pequeno para as necessidades e sobrelotado. As instalações sanitárias conservavam um mau cheiro persistente, apesar de serem limpas com grande frequência. Terá ocorrido algum erro de engenharia quando da construção.
Da área de transferência de voo, não se avista a velha Bizâncio. Não se vê a Mesquita Azul nem a Basílica de Santa Sofia. O palácio de Topkapi não passa duma recordação. Pode apenas imaginar-se o tédio das mulheres nos serralhos de tempos idos e a agonia dos irmãos dos novos sultões, sacrificados em nome da estabilidade do império otomano.
Por sorte, tive a companhia, sempre agradável, de Mia Couto. Não encontrei o escritor moçambicano em pessoa, mas conversei com o doutor Sidonho e com o velho mecânico Bartolomeu Sozinho, que estava quase a desexistir.
Enquanto se espera, vê-se e ouve-se gente das quatro partidas do mundo. A maioria das mulheres muçulmanas usa o véu islâmico, mas encontram-se bastantes com o rosto e o corpo tapados por roupa negra. Deixam ver apenas os olhos, as mãos e, por vezes, os pés.
O Corão aconselha os crentes a vestirem-se em público com modéstia. Os textos são interpretados de formas diferentes consoante os países e as correntes religiosas. O mandamento bíblico que proíbe cobiçar a mulher do próximo parece esbarrar facilmente na concupiscência dos homens árabes. Pessoalmente, desconfio da eficácia destas medidas. A verdade é que quanto mais se esconde, mais se deseja. O brilho duns olhos escuros e malandros pode arrastar para a perdição o mais bem-intencionado dos fiéis.
Seriam oito horas e tal. Uma dessas mulheres de negro retirou um tapete vermelho dum saco. Tinha o desenho dum pórtico e foi estendido no chão. A mulher permaneceu um momento de pé. Rezaria em silêncio. Depois, fletiu a coluna sobre o tapete. A seguir, ajoelhou-se e dobrou-se duas vezes para diante, até tocar com a cabeça no tecido. Um funcionário do aeroporto interrompeu-lhe a oração, pedindo-lhe para orientar o tapete em direção paralela à da passadeira rolante, para não atrapalhar a passagem dos transeuntes.
Obedeceu prontamente. Não tinha bússola, pelo menos à vista. Ignoro se o empregado laico melhorou ou piorou o seu direcionamento a Meca.  


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