DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

domingo, 23 de agosto de 2015

CRÓNICAS DA INDONÉSIA

VII

NUVENS E VULCÕES

A Indonésia situa-se numa fronteira geológica. Confluem nesta região três placas tectónicas: a indo-australiana, a euro-asiática e a do Pacífico. Os sismos são frequentes.

                          Erupção do vulcão Krakatoa 

O arquipélago tem muitos vulcões. 150 estão ativos. O Krakatoa e o Tambora ficaram tristemente famosos pelas erupções desastrosas que ocorreram no século XIX. Está presente, na memória de quase todos nós, o sismo ocorrido em 2004 no Oceano Índico. O maremoto que lhe sucedeu vitimou cerca de 170.000 pessoas na ilha de Sumatra. Revimos vezes seguidas, as imagens daquela desgraça, na televisão.
Quase tudo o que acontece no mundo e na vida pode ter leituras diferentes. A cinza vulcânica melhora a fertilidade dos solos e não será escusado referir que os templos de Borobudur e Prambanan foram levantados com pedra vulcânica.
O constante evaporar da água e a condensação nas camadas mais frias da atmosfera conduz à formação das nuvens. Quando carregam, ocorre a chuva. A precipitação permite o crescimento de plantas que suportam as outras formas de vida, mesmo longe dos cursos de água. Estes factos evidentes não deixam de me maravilhar cada vez que, ao viajar, sobrevoo os patamares de cirros, estratos e cúmulos. Esse caos aparente não passa dum equilíbrio delicado que permite a nossa existência.


Não existe uma associação direta entre nuvens e vulcões, mas as duas palavras juntam-se muitas vezes no meu pensamento. Sem chuva, não existiríamos. Por outro lado, um planeta sem vulcões seria, provavelmente, um astro morto.
Sem as erupções periódicas que dão testemunho do núcleo ígneo que persiste sob a crosta terrestre e sem o movimento das placas tectónicas que, de certo modo, flutuam sobre ele, a terra seria uma extensa planície e poderia estar totalmente submersa pelo mar. São os vulcões e o entrechoque violento das placas que elevam as rochas e originam as montanhas.
A contrariar essas forças descomunais, a chuva e o vento agem de forma lenta, provocando a erosão e procurando horizontalidades. A água das chuvas vai corroendo lentamente as rochas das montanhas, começando pelas mais solúveis. Os rios e os glaciares escavam vales profundos. A terra solta é arrastada para depósitos nas regiões planas. As serranias calcárias são todas ocas. Têm os ventres escavados pela dissolução do calcário. Algumas grutas colapsam. O trabalho da chuva está a ser feito há milhões de anos.
Em tempos recentes, a atividade humana tornou-se outro poderoso fator de erosão à escala planetária. A agricultura e a pecuária levam à desmatagem, deixando os solos desprotegidos. A extração do petróleo produziu cavernas enormes e profundas em poucas dezenas de anos. Desconheço a probabilidade de colapsarem também. A acontecer, haveria de juntar aos abalos telúricos de origem vulcânica e tectónica os que resultassem dos atos humanos.
Esta longa introdução serve para abordar a nossa deslocação ao monte Bromo. A uma vintena de quilómetros do hotel, deixámos os autocarros e embarcámos em carrinhas com motores potentes. A estrada é estreita e tortuosa e tem um declive acentuado. Os condutores mostram-se arrojados. Os veículos que descem que se cuidem, que aí vamos nós…


 Lá bem alto, uma surpresa aguarda quem, como eu, não se informou devidamente sobre a viagem. O hotel é constituído por uma série de bungalows dispostos em socalcos na vertente da serra. 



 Um pequeno funicular garante o acesso ao lobby aos hóspedes pouco vocacionados para o alpinismo.
O hotel dá apoio logístico a quem pretende conhecer o Monte Bromo. Os guias dizem que não é bom nem mau: é o único na região.
A psicologia de massas distancia-se do que parecem ser as conclusões lógicas da análise individual de situações precisas. O programa da viagem previa o despertar de madrugada e o embarque em jipes para os Montes Penanjakan, a uma altitude de mais de 2.700 metros. O objetivo era apreciar o nascer do sol. Ora, é sabido que o sol nasce cada dia e que aurora é semelhante em todas as partes do mundo. A visita ao monte poderia realizar-se a uma hora mais conveniente. No entanto, o programa foi cumprido. Lá fomos apanhar frio e esperar que o sol nascesse. A estrada serpenteante estava apinhada de centenas de veículos de tração às quatro rodas que conduziram milhares de turistas sonolentos e regelados até perto do miradouro. 



   O resto do percurso fez-se a pé e não se pode dizer que tenha sido fácil. Houve quem se detivesse por dificuldades respiratórias resultantes da rarefação do ar e da falta de hábito de esforços dessa magnitude. No entanto, toda a gente prosseguiu. Vi caminhar penosamente a meu lado pessoas com muletas.


  Estou em crer que, se não fosse a menção ao nascer do sol, a afluência seria bem menor. A psicologia de massas tem coisas assim. Eu fui porque queria ver o vulcão Bromo e não teria outra oportunidade de o fazer. Terei sido o único a protestar.


Seguiu-se a descida para a ampla cratera, onde estavam previstos passeios em cavalos conduzidos pela arreata. Nesse dia, o pequeno-almoço teve de esperar.


Nota: as quatro primeiras fotografias foram retiradas da Internet

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