DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015


CRÓNICAS DA INDONÉSIA

II

UM POUCO DE HISTÓRIA


 JACARTA, PORTUGUESES E HOLANDESES


Jacarta localiza-se na ilha de Java. Com uma população de cerca de nove milhões de habitantes, é a maior cidade e a capital da Indonésia. O facto de se situar a uma altitude média de 7 metros sujeita as suas áreas mais baixas a inundações periódicas durante a monção, em especial nos meses que vão de dezembro a fevereiro.
Francisco Serrão (que seria primo de Fernão de Magalhães) e António Abreu foram os primeiros navegadores europeus a aportar às ilhas Molucas, em 1512. Foram também portugueses os primeiros europeus que visitaram a região de Jacarta.


Existe no Museu Nacional da Indonésia um padrão de pedra encimado pela esfera armilar. Assinala o tratado assinado em 1522 entre o rei de Sunda e Portugal e foi erguido em Sunda Kalapa, no atual subdistrito de Tugu, no norte de Jacarta. O acordo foi estabelecido por interesse mútuo e por iniciativa do rei, que enviou a Malaca o seu filho Ratu Samian, futuro rei, a quem o nosso cronista João de Barros chamou Samião. Os portugueses pretendiam liberdade de circulação para o comércio de especiarias, em particular a pimenta. O rei hindu de Sunda beneficiava com esse comércio e obtinha proteção contra os seus vizinhos islâmicos instalados em Demak e Cirebon. O tratado previa a construção de uma fortaleza em Sunda Kalapa. Na altura, Jacarta não passava dum pequeno porto. Curiosamente, foi nesse mesmo ano que os navios de Fernão de Magalhães completaram a primeira viagem de circum-navegação, demonstrando que a terra era redonda ou, pelo menos, que não possuía arestas.



Afonso de Albuquerque conquistara Malaca, em 1511, passando a controlar o estratégico estreito com o mesmo nome por onde navegava a maioria das embarcações que faziam o comércio de alto-mar entre a China e a Índia. Apesar da conquista ter desorganizado a rede comercial, com parte dos navios mercantes a procurarem rotas alternativas, o Império Comercial Português do Oriente durou 130 anos. Findaria em 1641, com a perda de Malaca, deixando Macau e Timor sem ligações regulares a Goa. 
   A primeira expedição holandesa às ilhas indonésias foi liderada por Cornelis de Houtman. Cornelis e seu irmão Frederick passaram dois anos em Lisboa, em 1592 e 1593, a recolher informações sobre a rota comercial portuguesa através do Cabo da Boa Esperança. A atividade de espionagem foi descoberta e os irmãos foram presos, tendo sido libertados mediante uma fiança paga por mercadores holandeses.
Regressaram à terra natal levando informações preciosas sobre as terras e os mares do Oriente. Teriam obtido mapas de costas e recifes e dados sobre ventos e correntes marítimas.
Quando Cornelis voltou a Amesterdão, Jan Huygen van Linschoten regressara da Índia, apressando-se a divulgar as informações que recolhera ao serviço de Portugal. Foi criada uma sociedade de armadores e, em abril de 1595, Cornelis de Houtman partiu de Amesterdão comandando uma esquadra de quatro embarcações.
A viagem foi agitada. O escorbuto atacou a tripulação e setenta marinheiros foram enterrados em Madagáscar. A baía onde fundearam chama-se atualmente “cemitério holandês”.
Ocorreram, a bordo, conflitos entre comerciantes e capitães, resultando, pelo menos, noutra morte. Finalmente, a 27 de junho de 1596, a expedição atingiu Banten, um porto do noroeste de Java. Cornelis visitou depois as ilhas de Sumatra, Madura e Bali.
Um navio foi incendiado, por falta de marinheiros para o governarem. Dos 249 homens da tripulação, apenas 87 regressaram ao porto de embarque. Foi a chamada “Primeira Expedição” dos holandeses à Indonésia.
Embora a viagem tenha sido um desastre humanitário e financeiro, constituiu uma vitória simbólica. Representou o início da colonização holandesa da Indonésia.
Sete meses após o regresso a Amesterdão, os irmãos Houtman partiram numa segunda viagem à Indonésia, financiada por outro comerciante. Em Aceh, os holandeses entraram em conflito com o sultão local, alegadamente devido ao mau feitio de Cornelis, homem pouco dotado para a diplomacia. Foram batidos por uma esquadra comandada por uma mulher almirante, a lendária Keumalahayati. Cornelis morreu em combate, em 1599, e terá sido comido. Frederick esteve preso durante dois anos. Aproveitou o cativeiro para aprender o idioma malaio e para fazer observações astronómicas, identificando várias constelações do hemisfério sul. 
     Em 1602, foi constituída a Companhia Holandesa das Índias Orientais. Era uma empresa comercial e não o Estado a liderar o processo de intervenção no comércio de especiarias. Cinco anos mais tarde, já 65 navios holandeses tinham chegado à Indonésia. Foi fundada a colónia neerlandesa das Índias Orientais. Portugal perdeu o monopólio do comércio das especiarias e, em 1641, as forças da Companhia Holandesa derrotaram as nossas tropas e tomaram conta de Malaca.
Como ocorreu com os portugueses em Angola e Moçambique, os holandeses limitaram-se a controlar alguns portos, sem se aventurarem no interior do território. Ainda assim, as tropas coloniais tiveram de enfrentar rebeliões sucessivas.
A cidade atual de Jacarta foi fundada pelos holandeses em 1619, para servir de centro administrativo e comercial à companhia Holandesa das Índias Orientais. Foi-lhe dado o nome de Batávia.



O desenvolvimento comercial atraiu muitos chineses para a região. Instalou-se também na cidade um grupo numeroso de antigos escravos capturados pelos holandeses e depois libertados. Eram cristãos asiáticos que falavam português. O português tornou-se a língua mais falada em Batavia até ao final do século XVIII, tendo sido gradualmente substituída pelo holandês e pelo malaio. Persistem na língua indonésia inúmeras palavras de origem portuguesa.
Nasceram tensões entre chineses e holandeses. Num só dia, a 9 de outubro de 1740, foram massacrados 5.000 chineses. Os restantes tiveram de se mudar para fora das muralhas da cidade.
Jacarta foi ocupada pelos ingleses entre 1811 e 1814, durante as guerras napoleónicas. Java foi devolvida aos holandeses a quando do tratado de Londres, em 1814.
Em 1942, os japoneses tomaram conta de quase todo o sudeste asiático, incluindo a capital da colónia holandesa das Índias Orientais. Após a derrota japonesa, os nacionalistas indonésios aproveitaram o vazio de poder para fundarem a sua nação. A declaração unilateral de independência data de 1945 e foi seguida por uma guerra que durou quatro anos. Para o seu termo, contribuíram os esforços da diplomacia internacional. Os Países Baixos reconheceram a independência do novo estado em 1949. Foi instituída a República da Indonésia, com Sukarno como primeiro presidente.
Sukarno foi uma figura de grande prestígio internacional. Organizou, em abril de 1955, a Conferência de Bandung, que aproximou politicamente os países da Ásia e da África. No comunicado final mencionou-se expressamente o dever de todos os povos libertados ajudarem os países ainda colonizados a alcançarem as suas soberanias. A conferência de Bandung esteve ainda na origem do Movimento dos “Não alinhados”, um conjunto de nações que pretendia manter uma posição neutra em relação aos grandes blocos socialista e capitalista que se enfrentavam durante a Guerra Fria.
Em 1965, o general Suharto, apoiado pelos Estados Unidos, liderou um golpe de estado que derrubou o governo de Sukarno. Ocorreu um banho de sangue em que foram mortas cerca de meio milhão de pessoas, alegadamente comunistas.
Suharto foi reeleito cinco vezes e governou o país entre 1967 e 1998, sempre com o apoio dos militares. Promoveu um regime centralista, repressivo e corrupto. Com a crise económica asiática de 1997, foi obrigado a renunciar. Sucedeu-lhe o seu vice-presidente Habibie, que perdeu as eleições de 1999 para Megawati Sukarnoputri, filha de Sukarno.




Sem comentários:

Enviar um comentário