DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sábado, 12 de outubro de 2013

 CRÓNICAS DE NOVA IORQUE

                                III

                                        HARLEM


Durante a década de 1920, Harlem conheceu um desenvolvimento notável. Tornou-se, no dizer de alguns, a “capital mundial da cultura negra”. A sua especificidade cultural é ainda hoje bem aparente, mesmo para quem visita o bairro a correr.


Saímos do metro na estação Malcolm X, frente ao Hospital de Harlem e perguntámos pela igreja. Existiam muitas. Escolhemos um templo metodista em que o serviço religioso estava prestes a começar.


Havia automóveis de gama alta estacionados em segunda fila na rua da igreja. Deles saíam senhoras negras vestidas como se fossem para um casamento de duas décadas atrás. As vestes eram demasiado elaboradas. Muitas damas usavam chapéus de dimensões consideráveis, enquanto outras exibiam os cabelos encanecidos cuidadosamente desfrisados. 


Passou por nós um homem de meia-idade, de fato completo, sobretudo e chapéu de coco. Não sei como aguentava o calor. Nunca tinha visto um chapéu daqueles, exceto em filmes.
A igreja não era bonita, mas tinha um grande órgão e excelentes condições acústicas. Quase todos os fiéis eram velhos. Viam-se raras crianças e algumas adolescentes.
O coro ficava atrás e acima do altar. O organista era também o maestro.


No interior do templo, um homem baixo e magro, de bigode, sentado duas filas à nossa frente, na ala da esquerda, exibia um grande laço negro. De onde estava, não lhe via a mão esquerda, mas a direita tinha anéis de ouro em todos os dedos.


 No altar, sem imagens, as cadeiras e o púlpito estavam envoltos em panos brancos. Os oficiantes eram duas mulheres e três homens. Um deles usava colarinho eclesiástico e teria mais de um metro e noventa de altura. Foi ele quem disse duas frases curtas para abrir a cerimónia. Começaram logo os cânticos. As melodias eram lindas. Reconheci a música duma. Circulará em gravações comerciais. O coro tinha grande qualidade. Havia duas solistas. Uma era uma negra magra que andaria por volta dos sessenta anos e outra uma mulata jovem e gorda. As vozes de ambas eram magníficas.
A assistência agitava-se ao sabor da música. Sobretudo as senhoras, erguiam uma das mãos, ou as duas, e movimentavam-nas para um lado e outro, em gestos largos. A minha mulher disse-me baixinho que achava que algumas estavam prestes a entrar em transe. O gospel está pujante e faz parte dos domingos de muita gente, no Harlem.
Após quatro ou cinco canções, o oficiante do colarinho duro tomou conta da cerimónia. Leu algumas linhas do Novo Testamento em que os apóstolos pediam a Jesus mais fé. O texto continha uma conveniente alusão a um escravo. O pastor foi-se entusiasmando com o próprio discurso. Não era preciso mais fé, dizia. Cada um deveria usar a que tinha. Era um orador notável e daria um excelente ator de teatro dramático. Elevava a voz até gritar, descia o tom, abria pausas e voltava a subir para acentuar a emoção do discurso. Lentificava a fala quando achava conveniente, mas via-se que se entregava com mais agrado às tiradas arrebatadoras. Geria bem os instantes de silêncio e aproveitava-os para limpar o suor do rosto e do pescoço com uma toalha branca. Na assistência, algumas mulheres abanavam-se com leques de papel com a fotografia do pastor colada.


O homem seria capaz de conduzir um exército para a batalha. Julgo que alguns pecadores ficavam com medo de prevaricar.  Não conheço nenhum político português com aquela capacidade de comunicação. De padres, pouco sei – só vou às igrejas a batismos e funerais. 

Nota: Não tirei fotografias em Harlem. As imagens que apresento foram retiradas da Internet.

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