DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

   CRÓNICAS DE NOVA IORQUE

                                  I


                                     CHEGADA
A nossa chegada Nova Iorque ficou assinalada pelo encontro com um agente de polícia de fronteira invulgarmente grosseiro.
Ao longo da vida, visitei três dezenas de países espalhados por cinco continentes e nunca tinha visto tanto desprezo pelos turistas. O chui nem precisou de falar para mostrar que era uma cavalgadura: apontou para o modelo dum impresso que deveria ter sido apresentado e com gestos bruscos de mão, mandou embora a minha mulher, que me precedera na fila.
O nosso impresso estava corretamente preenchido. Cabia um a cada família e levava-o eu.
Mudamos para a fila do lado. O polícia era gentil. Resolveu-se de imediato o não problema.
Aqueles dois agentes ganham ambos o mesmo, ainda que um deles transmita uma imagem péssima do seu país. Também temos cá disso…  


O direito à estupidez não está claramente inscrito na constituição americana, mas há quem o exerça com liberalidade. Vê-se gente frustrada que se agarra o melhor que pode a migalhas de poder.
Há razões históricas para isso. Alguns emigrantes, logo que se fixavam no país, passavam a hostilizar os que pretendiam entrar. 
Entre o princípio do século XIX e os meados do século XX, Nova Iorque foi a principal porta de entrada de emigrantes nos Estados Unidos. Os recém-chegados desembarcavam no que é hoje Downtown Manhattan, nas docas das margens dos rios Hudson e East. Em 1855 foi criado em Castle Garden o primeiro centro de controlo de emigrantes. 


Sucedeu-lhe, em 1892, Ellis Island, junto à estátua da Liberdade. Por ali passaram, ao longo de dezenas de anos, mais de doze milhões de emigrantes. Uma minoria (à volta de 2%) era recusada e obrigada a fazer a viagem de volta. A percentagem era baixa, porque a seleção começava a ser feita nos portos de partida. Só vinha quem se julgava forte. Os Estados Unidos aceitavam apenas gente cheia de saúde. 


Diz-se que a América é terra de oportunidades. É verdade que Gates e Rockfeller nasceram lá e que a maioria dos cidadãos americanos consegue alcançar um modo de vida confortável. Gera, contudo, muitos frustrados. A crispação é bem aparente no trânsito da cidade. Os motoristas vão ralhando uns com os outros e com os peões por meio das buzinas, tanto de dia como de noite. 


     Os animadores das viagens guiadas parecem tristes e um tanto loucos. Estarão fartos de repetir vezes sem conta longos discursos que pouca gente ouve. O espírito de competição enraizado na sociedade americana tem o seu lado negativo: nem todos são capazes de ganhar. Os que não chegam ao sucesso, os “losers”, são mal vistos pelos outros e nem sequer gostam de si próprios. 



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