DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

  CRÓNICAS DE NOVA IORQUE


                                IV

                      OBAMACARE



A televisão americana passa muitos jogos de basebol e algumas partidas de futebol europeu ou sul-americano. Não é a época do basquetebol. O futebol americano e o hóquei no gelo estarão também na estação baixa.
As notícias de crimes ocupam no pequeno ecrã um espaço semelhante ao que lhe dedicam as nossas emissoras. Como a cidade é grande, os repórteres têm mais por onde escolher. Ainda assim, fixam-se às notícias, desenvolvem-nas e espremem-nas. Só as largam quando o público começa a ficar cansado delas.


Durante a minha estadia, a atualidade política foi dominada pelo “shutdown” (encerramento de atividades governamentais por falta de orçamento), imposto ao governo mais poderoso do mundo pela maioria republicana da Câmara dos Representantes. Lembremos que o Congresso americano é formado por duas câmaras, inspiradas no parlamento inglês. O Senado (Câmara Alta) conta cem membros. Atualmente o partido democrático está ali em maioria, com 53 lugares contra 45 dos republicanos. A Câmara dos Representantes (Câmara Baixa) tem 435 assentos. Estão ocupados por 234 republicanos e 201 democratas.


Curiosamente, as peculiaridades do sistema eleitoral americano permitem que os republicanos detenham a maioria na Câmara Baixa com um milhão e trezentos mil votos menos que o conjunto dos seus colegas democratas.
Na origem do braço de ferro entre o presidente Obama e os republicanos estão os limites impostos à dívida pública e o ambicioso programa de estender a assistência médica à grande maioria dos cidadãos americanos. A medida, conhecida como “obamacare”, constituiu uma das bandeiras eleitorais de Barack Obama. O povo americano ratificou-a nas eleições presidenciais. Terá entendido que comporta custos apreciáveis.


       As administrações dos EUA estão habituadas a elevar sucessivamente os patamares de endividamento federal. Provavelmente, as crises das dívidas soberanas em alguns países europeus fizeram crescer a apreensão acerca dessa matéria. No entanto, não se trata apenas de dinheiro. Há também ideologia. Muitos americanos continuam a pensar que um cidadão tem apenas direito aquilo que é capaz de pagar com o produto do seu trabalho.
O financiamento dos serviços governamentais americanos é diversificado e os efeitos práticos do “shutdown” limitaram-se, até agora, ao encerramento dos parques nacionais e de alguns monumentos.


A questão do endividamento é antiga. O controlo legal do Congresso sobre o Governo conta mais de um século. Ainda assim, a gestão pública  americana tem assentado em empréstimos externos sucessivos.
O desemprego continua elevado. Apenas 63 % da população tem trabalho e só 43,7% dos adultos têm atualmente emprego a tempo inteiro.


O que significa, afinal, o Affordable Care Act, o “Obamacare”? A nova lei entrou já em vigor.
Os cidadãos a quem a entidade patronal não garanta seguro de saúde podem candidatar-se ao Obamacare. Os jovens até aos 26 anos são protegidos pelos seguros de saúde dos pais.
Os planos de saúde (privados) variam de estado para estado e são pagos, em parte, pelos interessados. Dentro do mesmo estado, as pessoas podem escolher o que considerarem melhor. Quem ganha menos de 80.000 dólares por ano receberá alguma ajuda da nova segurança social. A maioria da população norte-americana acabará por receber algum apoio do Affordable Care Act. Existem quatro opções, escalonadas de “bronze” a “platina”. Variam nos custos e nos benefícios recebidos, que incluem a frequência das consultas médica e de internamentos hospitalares. O “bronze” é o mais barato e o que assegura menos vantagens.


Para nós, europeus, isto não parece grande coisa, mas a realidade americana é diferente da nossa. Até agora, uma percentagem elevada dos eleitores da economia mais poderosa do mundo tinha acesso limitado a cuidados de saúde.
Os americanos continuam à espera de que um compromisso entre republicanos e democratas resolva o problema do teto da dívida e alcance um compromisso orçamental que possa durar.

Nota: as imagens 1 e 3 foram retiradas da Internet.


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