DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

domingo, 23 de dezembro de 2012



                                                      XI`AN



Xi`an fica cerca de mil quilómetros a sudoeste de Pequim. Tem mais de 3.100 anos de história e, tal como Roma, é chamada cidade eterna. Estrategicamente situada na extremidade leste da Rota da Seda, por volta do século VI DC chegou a ser a maior cidade do mundo. Foi capital da China ao longo de 13 dinastias, tendo sido governada por 73 imperadores.
Ali, o outono ainda não tinha avançado tanto e as árvores conservavam  uma parte da roupagem verde.
O local onde foram encontrados os guerreiros de terracota dista pouco mais de 40 quilómetros da cidade. É o mausoléu de Qin Shihuang, o primeiro imperador da China. 


As figuras datam do século III AC e foram acidentalmente descobertas por agricultores em 1974.


Não resisto a deixar aqui um poema de Wang Wei, escrito nove séculos após a morte do imperador. Intitula-se “Ao passar junto ao túmulo de Qin Shihuang”.

          A velha tumba transformou-se em montanha verde,
          A última morada do soberano é um terraço púrpura.
          O céu, sobre o túmulo, separado da abóbada celeste,
          As Nove Nascentes, tão longe dos rios do império
          Há também o mar, mas como transpor suas águas?
          Aqui não chega a primavera, jamais gansos selvagens de regresso.
          Ao ouvir, de novo, um sussurrar ondulante nos pinheiros
          Como não pensar no ciciar do vento em Dafu?

Dafu foi o nome dado a cinco pinheiros da montanha Tai sob os quais o imperador Qin Shihuang se abrigou do vento e da chuva, depois de oferecer sacrifícios aos deuses. Agradeceu concedendo aos pinheiros um título honorífico.
Que loucura, a do imperador! Fez dispor um exército de louça em posição de combate para uma batalha que nunca viria a ser travada. 


As pirâmides egípcias e sul-americanas terão sido também mandadas levantar por loucos. Hoje, milhões pessoas deslocam-se a outros continentes para as apreciarem. Será necessária alguma loucura para amplificar os sonhos humanos e produzir obras imperecíveis?


O monumento fúnebre do velho imperador continuou a ser um cemitério ativo. Durante séculos a fio, os fazendeiros locais enterraram os seus mortos em cima do exército fantasma. Num ano de seca, os camponeses tiveram necessidade de abrir um novo poço. Não foi preciso escavar muito para encontrarem cacos de cerâmica colorida. Assustaram-se e fugiram. Depois, regressaram. Recolheram alguns dos objetos estranhos e entregaram-nos às autoridades (diga-se à organização local do Partido Comunista). Iniciou-se então um longo e cuidadoso processo de recolha, caracterização e preservação dos achados arqueológicos. 


O trabalho continua. Há milhares de guerreiros de terracota por exumar. As estátuas eram pintadas, mas as cores desvanecem-se rapidamente em contacto com o ar. As que hoje estão expostas apresentam poucos vestígios de tinta. Prudentes e sábios, os responsáveis chineses decidiram interromper as escavações, expondo o material já reunido. Preservaram o resto do exército para ser desenterrado quando existirem novas tecnologias que permitam a conservação das tintas.


Ao ocuparem as terras com o espaçoso museu com cinco grandes pavilhões, as autoridades tomaram conta das terras de cultura e deixaram uma pequena aldeia sem possibilidades de continuar a cultivar o solo. Os camponeses que ficaram procuram ganhar a vida fazendo cópias de má qualidade dos guerreiros de terracota para os venderem barato aos turistas. A maioria das estatuetas nem chega a ser cozida, para não encarecer o processo. Quebram-se num instante. Nas instalações do museu há reproduções de qualidade para venda. São, naturalmente, muito mais caras.


Um dos agricultores que participaram nas descobertas, agora convenientemente designado por “o que descobriu” arranjou emprego vitalício sentado a uma mesa como relíquia viva de um passado recente. Está bem à mostra, mas não deixam fotografá-lo. Talvez sejam obrigados a substituí-lo de tempos a tempos por morte ou impedimento da testemunha oficial.
Os antigos agricultores gerem ainda uma das instalações sanitárias públicas à entrada do espaço de exposições. A entrada é paga – custa um yuan. Foi a única casa de banho suja que encontrei na China.
Dispusemos de pouco tempo livre em Xi`an. De manhã, visitámos a cultura dos mortos. De tarde, contactámos com a cultura dos vivos.


A parte velha de Xi`an é cercada por uma muralha retangular com perto de 14 quilómetros de perímetro a qual, apesar da sua extensão, deixou há muito de ser capaz de conter a cidade em crescimento. No interior da muralha, encontram-se a Torre do Sino (Bell Tower) e a Torre do Tambor (Drum Tower).


Tentámos visitá-los, mas estavam a receber reparações e encontravam-se encerrados ao público. Curiosamente, as funcionárias encarregadas da venda dos bilhetes permaneciam nos seus locais de trabalho, onde nada havia obviamente para fazer. Disciplina chinesa…
Tomámos um café caro (30 yuans equivalem aproximadamente a 4 euros e meio) num estabelecimento da cadeia americana Starbuck. Depois, caminhámos algumas dezenas de metros e encontrámo-nos com outra cultura: uma rede de ruas estreitas onde suponho que era possível encontrar quase tudo o que os chineses são capazes de comer (e sabe-se que não são esquisitos nas suas escolhas). Havia lojas e lojas com uma grande variedade de frutos secos, especiarias, talhos diversificados, frutarias e ainda lojas de presentes. É o outro lado, o que permanece vivo e talvez não tenha  mudado muito desde o tempo do imperador que mobilizou um exército a fingir para se proteger dos inimigos do Além mais de duzentos anos antes do nascimento de Jesus Cristo.





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