DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012


                       A GRANDE MURALHA


Esta manhã, o sol de Pequim com o brilho filtrado pela neblina parecia a lua. Achei o nevoeiro sujo, a fazer lembrar as descrições do smog londrino dos tempos do aquecimento a carvão, mas talvez esteja a exagerar. Avistam-se, contudo, dentro do perímetro da cidade, algumas chaminés de fábrica a despejar fumo negro.
O vento e o frio dos últimos dias terminaram a desfolhagem das árvores que agora se dispõem nas margens da estrada com o aspeto meio morto da hibernação. 
Percorremos cerca de 60 quilómetros de automóvel até Mutianyu, onde subimos à muralha por teleférico.



Não esperava deslumbrar-me. É um sinal dos tempos: já vimos tantas imagens, já digerimos tanta informação, que perdemos boa parte da capacidade de nos espantarmos.



Ontem nevou e as superfícies planas estão cobertas por um manto branco pouco espesso que tarda em derreter. Faz frio, mas viemos bem agasalhados. Felizmente, não sopra vento.



A Grande Muralha é constituída por uma série de fortificações construídas ao longo de épocas diferentes e constantemente reparadas e ampliadas. Dispõe-se numa direção geralmente leste-oeste através da fronteira norte tradicional da China com a Mongólia Interior.



     Destinava-se a defender o império chinês dos ataques das tribos nómadas do norte. Secundariamente, servia para controlar as fronteiras, impondo a cobrança de impostos às mercadorias transportadas na Rota da Seda. O seu piso foi também utilizado com estrada para transporte de pessoas e mercadorias.



A construção iniciou-se no século VII AC. A fortificação estende-se ao longo de cerca de 8.800 quilómetros, desde Shanhaiguan, no leste, até ao Lago Lop, a oeste, desenhando um arco irregular. 



     Quando Qin Shi Huang  unificou a China em 221 AC, decidiu impor um governo centralizado e impedir o regresso dos senhores feudais. Mandou  assim destruir as secções de muralha que dividiam o seu império. Ordenou depois a construção de uma novo grande muro que ligasse as fortificações restantes ao longo da fronteira norte da China. A obra ficou cara em termos materiais e em vidas humanas. Julga-se que centenas de milhares de trabalhadores morreram durante a edificação, havendo mesmo quem aponte para um milhão de vítimas.



 Fernão Mendes Pinto foi dos primeiros europeus a visitar e descrever a Grande Muralha. A sua viagem não foi propriamente voluntário ou de recreio. Pinto relata ter cumprido trabalhos forçados durante cerca de um ano, na manutenção do muro. Deixou-nos o testemunho da sua experiência. Um dos capítulos da Peregrinação intitula-se Qual foi o rei da China que fez o muro que divide os dois impérios da China e da Tartária. Conta o aventureiro:
… Porém, o rei que então reinava na China, receando-se de outro poder a que ele não pudesse resistir, determinou fechar com muro toda a raia de ambos estes impérios…
...Este muro vi eu algumas vezes e o medi, que tem por todo em geral, seis braças de alto e quarenta palmos de largo no maciço da parede… …e em lugar de torres ou baluartes, têm umas guaritas de dois sobrados, armadas sobre esteios de pau-preto…





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