DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

CRÓNICAS DE ANGOLA - SURUCUCU

Chegou-nos um alvoroço vindo das aves do cercado. A São comentou:
- Se calhar, entrou lá uma cobra...
Estaria influenciada pela conversa da véspera, sobre répteis. Nem ela própria se levou a sério.
O rapaz que trata da capoeira saíra, de manhã, para um funeral e esquecera-se de deixar a chave do cadeado da porta.
Horas mais tarde, a Licita quis alimentar a criação. As cerimónias fúnebres, em Angola, são demoradas e não era de esperar que o empregado regressasse antes da noite. Forcei o cadeado com um martelo.
A dona entrou e encontrou um ganso morto. Ainda estava quente.
- Pode ter sido picado por uma cobra...
Proibiu os negros de o comerem, com receio do eventual veneno. Eu não fiz comentários. Ignoro se a peçonha dos ofídeos se altera com a cozedura. De qualquer forma, se não tivesse sofrido morte violenta, a ave teria de estar muito doente e representaria perigo potencial para a saúde de quem se aventurasse a cozinhá-la. Foi enterrada.
Ao fim da tarde, o Chitaculo, que é empregado doméstico, estava a tratar do jardim. Encontrou o rasto de uma serpente na estrada fronteira e chamou a patroa que, por sua vez, mobilizou os trabalhadores agrícolas para uma batida que se iria revelar infrutífera. 


A marca rasto lá estava, nítida no pó do caminho. Cobra, nem vê-la. Fotografei as impressões deixadas no terreno. Indicaram-me até a que tinha sido deixada pela cauda.


Os negros garantiram que era uma surucucu, pequena demais para comer um ganso, mas com envergadura suficiente para se interessar por um frango. Com a mordidela, inocula um veneno que pode ser mortal. Provavelmente, o ganso tentou defender a capoeira e saiu a perder.
Era fácil descortinar a direcção que o réptil seguira naquele ponto, mas o resto do terreno era demasiado duro para que ficassem mais vestígios da sua passagem.
No dia seguinte, um homem foi comprar creolina para ser vertida em redor das casas e da cerca das aves. Vão também fazer-se arder uns tantos pneus velhos. Dizem que o cheiro a borracha queimada afugenta as cobras.



Afinal, a África não mudou assim tanto. Passam serpentes venenosas a vinte metros do alpendre onde fazemos as refeições.

2 comentários:

  1. Tudo, o que aqui é?! revelado, não passam de mentiras! Trabalhei em diversas explorações agrícolas em Angola, e na floresta do MAIOMBE, entre cabinda, e o Zaire e só aí eu vi, e medi mais de uma cobra, com 10 metros e pouco, e os indigenas, afirmavam-ISSO È FILHO- a gente já viu muito maior!!

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  2. Se me conhecesse, saberia que não sou mentiroso. Terá lido bem o artigo?

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