DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sexta-feira, 10 de Junho de 2011

CRÓNICAS DE ANGOLA - PLANTAS MEDICINAIS

A minha amiga Licita tem a pele branca como a do pai e a alma negra como a da avó materna. Possui uma fazenda na região de Waco Kungo, perto do centro geográfico de Angola e orgulha-se tanto das árvores de grande porte que preserva como da manada de vacas gordas que começou a criar.
Garante conhecer ervas, frutos e raízes com propriedades medicinais. Cultiva, no quintal, plantas de Chá de Caxinde. Fala do Tchivali, um fruto seco que se perfura para lhe extrair a polpa para a misturar com água e introduzir nos canais auditivos externos dos doentes com otite. Poderá conter um antibiótico, imagina.


O Brututo é um arbusto com cujas raízes se prepara uma infusão que ajuda, segundo crê, a "limpar" o fígado e a vesícula.
Na sua boca, as ervas cheirosas do mato angolano permitem tratar quase todas as maleitas que afligem a humanidade. Deveriam ser estudadas pela farmacologia moderna, para se isolarem os eventuais princípios activos.


Sou homem de pouca fé e atrevo-me a supor que essa tarefa foi já levada a cabo. Educado numa tradição farmacológica recente, em termos históricos, olho com suspeição o recurso às plantas medicinais que reinaram na farmacopeia ocidental durante milénios e poucos anos acrescentaram às vidas dos nossos antepassados, contribuindo quase nada para lhes elevar a qualidade de vida. Sou tentado a pensar que qualquer erva com bom cheiro adquire facilmente a reputação de benfazeja. O Chá do Iona, uma planta seca que reverdece rapidamente após o contacto com a água, associa-se quase à ideia de ressurreição e é considerada propenso a regenerar órgãos doentes. Por outro lado, as fontes termais, de que brotam águas por vezes com cheiro sulfúreo, chegam a ser consideradas enviadas pelos deuses para aliviarem o sofrimento humano.
Hesito, ainda assim, ao lembrar que se conhecem plantas capazes de dar a morte. Basta lembrar a cicuta de Sócrates e os míscaros que levam cada ano, em Portugal, vidas de pretensos conhecedores de cogumelos. Os medicamentos mais poderosos que se conhecem para combater a dor continuam a ter origem vegetal. Vergo-me perante a máxima de Hipócrates que exibo, traduzida para latim, em azulejos antigos, à entrada da minha casa: Sedare Dolorem Opus Divinum Est.
Sou forçado a abrir uma janela de dúvida para os eventuais benefícios da medicina tradicional angolana. Conheço colegas que se dedicam actualmente a esta matéria. Haverá aspectos que poderão ser reexaminados.

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