DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sábado, 11 de junho de 2011

CRÓNICAS DE ANGOLA - PESCARIA

No terceiro dia que passei na fazenda, tentei ir à pesca com a São e a Licita. Não demos com a lagoa do Catófe e voltámos para trás, ao começarmos a pisar terreno alagadiço.
Fiz nova tentativa no dia seguinte, guiado pelo Chitaculo, que conhece bem o rio. Atravessámos uma lavra de ananás, abrimos a cancela da cerca dos bois e descemos por um caminho fácil. O percurso durou menos de vinte minutos.
Esperava-nos uma lagoa paradisíaca de água cantarolante, rodeada por vegetação altiva. Imaginei que acabara de entrar no cenário dum filme do Tarzan.
Não tínhamos canas de pesca nem carretos e fomos forçados a improvisar. Para obtermos bóias, dividimos a rolha da garrafa de vinho do almoço que, diga-se a verdade, não era nada mau. Cortámos duas canas verdadeiras para sustentar as linhas sem que se empachassem nas plantas da margem e tentámos pescar.
É sabido que um pescador devoto se sujeita a quase tudo. O cheiro do conteúdo das tripas de galinha que nos serviram de isco ficou agarrado aos meus dedos durante toda a tarde.
Sentia-se picar peixe miúdo, incapaz de abocanhar o anzol. Tive dois toques maiores mas inconsequentes.


Pescávamos numa pequena clareira com menos de três metros de diâmetro, encostada à berma da lagoa, pouco acima do nível da água. A dada altura, sentiu-se um rumorejar no capim, à nossa esquerda. Não lhe liguei importância. O Chitaculo perguntou:
- Está a ouvir?
Disse-lhe que sim. Pensei que se tratasse de um antílope pequeno ou de um macaco, embora desse conta de que o ruído se aproximava, em vez de se afastar. De repente, o Chitaculo gritou:
- Foge! Foge!
Larguei linha e cana e corri para longe do rio. Detive-me trinta metros adiante. O Chitaculo parou antes. Virou-se para trás, olhou e pareceu aliviado.
- Já foi.
- O que era?
- Jacaré.
- Grande?
- Não. Pequenino. Criança...
- Vamos embora!
- Não precisa...
- E a mãe dele, ou o tio?
- Não está. Era só o bebé...
Pelo espaçamento das mãos do Chitaculo, o crocodilo mediria cerca de um metro. Eu não cheguei a vê-lo.
- Tens a certeza de que não era um sengue?
- Tenho! Conheço bem o sengue.
Ainda tentámos pescar, mas o movimento afastara os peixes, que deixaram de picar. Voltámos a casa bem antes do pôr-do-sol. Não tínhamos peixe para o jantar mas, ao menos, trazíamos uma pequena história.


Para a lagoa ser de todo paradisíaca, fazia falta uma Eva. No que respeita à serpente, acho que foi bem substituída. 

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