DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

CRÓNICAS DE ANGOLA - O RIO KUANZA



Sempre gostei de rios. Nasci junto ao Douro e vivo há muito à beira-Sado. No espaço de dois dias, encontrei-me por três vezes com o Kuanza.
A primeira, foi no Bom Jesus, onde laboram fábricas de refrigerantes. Diz-se que a cerveja ali produzida é melhor, graças à qualidade da água.


As lavadeiras faziam o seu trabalho, enquanto as crianças brincavam. Umas dezenas de metros adiante, um pescador de pé, à proa do seu barco encostado à margem, ia lançando com gestos elegantes a sua pequena rede arredondada. A pesca foi boa. Meia hora depois, passaram por nós dois homens carregando uma bacia com cacussos. O nosso motorista sugeriu que comprássemos alguns. O preço era baixo. Interessei-me apenas por instantes. Não dispúnhamos de condições para os cozinhar.
Na manhã seguinte, na estrada que leva de Luanda à Quibala, detivemo-nos no Dondo, que se situa na margem do Kuanza, numa encruzilhada dos grandes caminhos de Angola. A povoação não tem grande aspecto. Há quem diga que é a pior cidade do País. A vista do Kuanza é que fica na retina.


Como centro urbano, o Dondo poderá ser tão antigo como Luanda. Teve, em tempos, importância comercial porque o Kuanza é navegável até ali. Passámos por uma lanchonete chamada "Sol e Pó". Eram as duas características marcantes do velho Dondo. A terra modificou-se. O sol lá está, hoje encoberto pelas nuvens que hesitam em largar as últimas pingas de água antes de se submeterem à hegemonia do cacimbo. Habituado a ver o calendário pautado por equinócios e solstícios, estranhei a escolha do dia 15 de Maio para data oficial do fim da estação das chuvas. Poderá ter algum valor estatístico. Pelo menos, ninguém a contesta. A estrada foi asfaltada há muitos anos, eliminando a poeira que irritava os olhos e os narizes dos viajantes. Dizem que, na estação chuvosa, o calor no Dondo é tanto que o campo de futebol da povoação foi baptizado de "Inferno" pelas equipas visitantes.
Tomámos o segundo mata-bicho num restaurante moderno, tão ufano dos seus múltiplos aparelhos de ar condicionado que tivemos de pedir que os desligassem para pararmos de tiritar.
Pensando no mapa de Angola, parece lógico esperar que a cidade prospere, dada a sua situação privilegiada na encruzilhada dos caminhos que atravessam o País de Norte para Sul e de Leste para Oeste. Obviamente, o futuro do Dondo irá ser condicionado pelas opções dos futuros planejadores de auto-estradas.
Passada a Quibala, onde o meu pai morreu num acidente de automóvel quando regressava a Sá da Bandeira, vindo de Luanda, afastámo-nos umas centenas de metros da estrada alcatroada e metemos por uma picada para apreciarmos um rápido do grande rio. As marcas da cheia recente permaneciam bem visíveis e lagartos coloridos aqueciam-se nas rochas ensolaradas.


O prefixo Ku designa rio em quase todo o território angolano. Vêm-me à ideia o Kunene, o Kubango e o Kuando, mas há muitos outros que começam do mesmo modo. O Kuanza merece o respeito dos velhos sobas cuja ira era insensato despertar. Ocupa um lugar especial no imaginário das gentes de Angola. Dá nome a duas províncias e à moeda nacional.

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