DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

CRÓNICAS DE ANGOLA - O ELEVADOR


Nas entranhas do edifício, abraçado pelas escadas que para lá do quinto andar se fazem duras de subir, mantém-se um paralelepípedo estruturado em ferro onde, em anos esquecidos, se movimentou uma caixa metálica. Foi selado para que ninguém se despenhasse ou cedesse à tentação de depositar ali os resíduos domésticos.
Testemunha o tempo em que outras famílias aqui moravam. Aconteceu na época em que os elevadores funcionavam, o asfalto das ruas tinha poucos buracos e a recolha do lixo se fazia com prontidão. Por esses dias, poucos angolanos negros eram reconhecidos como cidadãos de pleno direito. Estava-se na época colonial.
O esqueleto das caixas postais fica ao lado. Os carteiros partiram ou mudaram de profissão. Ninguém faz chegar a correspondência à entrada do prédio.
A maioria dos antigos habitantes do centro da cidade fugiu há muito, assustada pela independência e pela guerra civil que a precedeu e seguiu. Homens e mulheres partiram, muitos de mãos vazias e corações magoados. Uns regressaram a Portugal e outros perderam-se nos caminhos do mundo. Os anos passaram e muitos deles tiveram já os nomes registados em páginas de obituário.
Ao subir a pé ao terceiro andar, vou imaginando as vidas das famílias portuguesas que se fizeram transportar no elevador deste prédio de apartamentos que, ao tempo, devia ser novo. Seria gente comum, com sonhos, ambições e fraquezas semelhantes às de todas as pessoas de quase todas as épocas. Aconteceu-lhes terem as vidas abaladas por uma reviravolta da História.
Contactei com muita gente assim, ao longo dos anos. Alguns dos meus irmãos partilharam o êxodo. As pessoas desenraizadas sofreram mas adaptaram-se. Refizeram empresas e carreiras profissionais e contribuíram para renovar o velho Portugal. Os seus saberes fizeram falta na terra angolana, mas não tanta que dê para serem lembrados com saudade.
As paredes não têm memória e as casas não recordam a gente que abrigaram. As pessoas não esquecem. Em alguma povoação do longínquo Portugal ou noutro exílio - na Europa, na África do Sul, nas terras americanas - haverá quem ainda sonhe com o tempo em que subia de elevador até ao lar que parecia seguro e duradouro.

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