DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

CRÓNICAS DE ANGOLA - LUBANGO


O Lubango foi poupado pela guerra. Não se vêem edifícios destruídos por bombardeamentos nem fachadas de prédios crivadas de balas.


O centro da cidade mudou pouco. Não encontrei dificuldade em orientar-me nas ruas que percorri, vezes sem conta, meio século atrás.


Identifiquei facilmente as casas que habitei ou, melhor, reconheci duas e o lugar da terceira.


A casa grande da antiga Praça da Colónia, hoje dos Fundadores, está ocupada por uma repartição militar. A casinha modesta de onde saí para Portugal tem acesso por uma rua muito danificada. O terreno em frente, que em tempos foi do meu pai, está preenchido, até ao rio e mais além, por um bairro novo de construções pobres. A pequena moradia do Picadeiro foi demolida, bem como o Hotel Metrópole que lhe era contíguo. Existe ali, agora, uma casa recente e nova instalação hoteleira.


A escola onde fiz a instrução primária foi remodelada nos anos sessenta. Permanece encostada ao Parque Infantil. O antigo Liceu Diogo Cão é agora uma Universidade. Apesar dos anos, o edifício não perdeu imponência.


A antiga Escola Comercial e Industrial Artur de Paiva foi também promovida.


Apesar dos passeios degradados e das montras empobrecidas, o Picadeiro seria quase o mesmo, se continuasse a ser percorrido, nas tardes de Domingo, pela juventude da cidade. O hábito perdeu-se. A gente nova namora noutros sítios. Ninguém percorre tontamente, de cima para baixo e de baixo para cima, aquele segmento da velha rua Pinheiro Chagas, como acontecia dantes. A montra da Lello lá continua, agora com grades, aparentemente bem fornecida de livros técnicos.
A população, maioritariamente branca na época colonial, escureceu consideravelmente, embora continue a ser mais clara que noutras cidades de Angola.
A periferia do Lubango sofreu grandes alterações. Cresceu anarquicamente, à medida que o interior do Sul do País se ia despovoando.


Gostei de estar no Lubango. Lamento apenas o encurtamento da estadia. Havia muitas mais coisas a rever. Nasci em Almendra, vivi em Angola, estudei em Coimbra, trabalhei em Lisboa e moro em Setúbal. Fui médico nos mares da Terra Nova e da Gronelândia. Percorri, como turista, quase meio mundo, mas entre todas, é esta a terra que sinto verdadeiramente como minha.


Costumo dizer que a terra de um homem é aquela em que ele se conhece.
No entanto, entrei na cidade e saí sem ser abalado por emoções fortes. Não vi com que me surpreender ou desiludir. A juventude vai longe e julgo ter entendido há muito os passos da História.
As cidades são, em boa parte, as pessoas que as habitam. A maior parte da gente que conheci abandonou o Lubango há 35 anos. A Sá da Bandeira do tempo colonial sobrevive apenas na memória dos que a perderam.
Muitas coisas mudaram para melhor. Junto à Senhora do Monte nasceram alguns empreendimentos hoteleiros bonitos e confortáveis. Um deles fica ao lado da "casa assombrada" e foi convenientemente baptizado de "Gasper Lodge". foi ali que pernoitámos. 



O tempo deu para pouco, pois havia necessidade de voltarmos a Benguela. Nos arredores da cidade, pude apenas rever a Tundavala. A Leba, a Hunguéria, o Bimbe, a Huíla, a Humpata, a Chibia e o Tchivinguiro, que circundam uma das cidades mais bem implantadas do planeta, ficam para outra visita.


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