DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

CRÓNICAS DE ANGOLA - LUANDA II


O trânsito em Luanda é o das grandes urbes dimensionadas para uma população muitas vezes inferior à actual e com níveis de circulação mais reduzidos. É intenso, confuso, exasperante, lento e perigoso. E não será demais observar que apenas uma parte restrita da população tem acesso ao automóvel pessoal.
Vêem-se, aqui e ali, tentativas para reorganizar o tráfico urbano, com instalação de algumas passagens desniveladas e alargamento de vias. É o caso da Marginal, que parece ter escapado a um projecto megalómano de reinvenção.


Passei pela ponte nova de acesso à Ilha no dia em que foi inaugurada.
Foram criadas cidades satélites com excelentes padrões de urbanização. No entanto, os apartamentos são muito caros e muitos compradores continuam a trabalhar no centro de Luanda. Sofrem tormentos para entrarem e saírem dos empregos às horas de ponta.
O velho comboio foi recuperado, mas serve um percurso limitado e circula com lentidão. Ninguém respeita as passagens de nível e a máquina é forçada a parar para não arrastar automóveis. No regresso de Viana apanhei um engarrafamento de trânsito e fui acompanhando o percurso do comboio. Era mais lento do que nós, que estávamos quase parados.
Fala-se em implementar um metropolitano de superfície. Espero que se venha a tornar realidade.
Sem uma política eficaz de descentralização dos serviços administrativos que leve atrás boa parte do comércio da cidade e na ausência de um esforço titânico para estruturar os transportes colectivos, Luanda dificilmente deixará de ser o que é hoje, durante o dia, nas ruas mais movimentadas: um imenso engarrafamento de trânsito.


Por outro lado, as instalações de água, luz e esgotos da maioria dos prédios do centro da cidade são ainda do tempo colonial. Ao longo de todos estes anos, a conservação tem sido pouco eficaz. Parece mais fácil edificar uma cidade nova do que reparar ou substituir estruturas em prédios habitados.
Escutei involuntariamente uma conversa em espanhol, enquanto almoçava num restaurante da Ilha, à beira da água. Passo a traduzi-la, de forma aproximada:
"Encerrar ao trânsito uma rua inteira durante um mês implica apenas incómodos suportáveis. Esse período de tempo dava para instalar esgotos novos, canalizações de água e gás, circuitos eléctricos e fibra óptica. Depois, tapava-se tudo com asfalto novo. Quando se acabasse, passava-se para outra rua. As ligações iam-se fazendo progressivamente..."
Aguardemos. Continuam a ser edificados arranha-céus no coração de Luanda. Ali é que é bom e chique trabalhar... Vêem-se múltiplas torres em fases diversas de construção. Os seus futuros habitantes trarão mais automóveis para as ruas superlotadas. Será que um dia o trânsito se vai tornar tão complicado que a capital de Angola vai parar de todo?

Nota: as duas primeiras fotografias deste artigo foram retiradas da Internet.

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