DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

sábado, 4 de junho de 2011

CRÓNICAS DE ANGOLA - LUANDA I

A capital de Angola está a mudar. Nascem cada vez mais torres de betão no centro da cidade. Por vezes, falta dinheiro e as obras interrompem-se mas, algum tempo depois, prosseguem. A primeira fotografia que ilustra o texto foi retirada da Net. A Marginal está em obras e apresenta-se menos fotogénica.
Ainda que o desemprego atinja aqui números que se dizem elevadíssimos, mas de que ninguém parece conhecer cifras exactas, não são maioritariamente angolanos os construtores dos novos arranha-céus. Os operários vêm de outros continentes. Os luandenses não sabem, ou não querem, ocupar-se desses trabalhos.
Durante os anos de guerra, Luanda cresceu desmesuradamente, à medida que o interior do País perdia população. Uma cidade planeada para menos de um milhão de habitantes conta agora quatro ou cinco vezes mais. Embora os números se devam encarar com alguma reserva, a concentração urbana é claramente exagerada. Lembre-se que a densidade populacional do conjunto de Angola é muito baixa.
A minoria rica mora em habitações recuperados no coração da cidade ou nas novas urbanizações da periferia. Os desfavorecidos da fortuna distribuem-se por ilhas de moradas precárias, levantadas nos espaços disponíveis entre os prédios altos, e pelos musseques que se estendem a perder de vista e não dispõem de água canalizada nem de sistema de esgotos.
A testemunhar o receio de assaltos vêm-se, sobre os muros dos quintais, rolos de arame farpado com aspecto militar. As portas e janelas dos andares baixos são reforçadas por grades metálicas. Encontram-se sistematicamente vigilantes privados à porta de escritórios e estabelecimentos. 
Alguns antigos largos foram preenchidos por aldeamentos improvisados, constituídos por ajuntamentos de casas de um piso com paredes de adobe e tectos de folha ondulada de zinco, seguros com grandes pedras para não serem levados pelo vento. As habitações são quase pegadas e é fácil imaginar que os cidadãos mais gordos tenham dificuldade em transitar nos becos.
A maioria dos pobres mora longe. Bairros tradicionais, como o Pemba e o Sambizanga, ganharam equivalentes novos e densamente habitados em volta da cidade. Quem tem trabalho, regular ou improvisado, é obrigado a percorrer, duas vezes por dia, distâncias consideráveis. Os luandenses levantam-se bem cedo.
Embora se vejam muitas ruas urbanas recuperadas, quando chove abrem-se nos pavimentos buracos que ninguém se apressa a tapar. As camionetas de passageiros não conseguem passar por alguns sítios. Os candongueiros vão a toda a parte. Sem eles, Luanda dificilmente continuaria a funcionar.
As diferenças entre os que têm e os que não têm criaram um fosso social que, olhado de fora, parece quase impossível de transpor. Em Angola, os ricos são muito ricos. Viajam por todo o mundo, usam roupas de marca e hospedam-se nos melhores hotéis das capitais europeias e sul-americanas. Em Lisboa, existem estabelecimentos comerciais que, diz-se, encerram as portas ao público de todos os dias quando entram esses visitantes endinheirados.
Nas ruas de Luanda pululam vendedores de quase tudo. Os condutores aproveitam os engarrafamentos de trânsito para fazerem compras. É desse comércio incipiente que uma parte importante da população da cidade vai retirando os kuanzas da sobrevivência.
A maioria da população é muito pobre. Ainda assim, quase toda a gente ostenta telemóvel e as mulheres usam o cabelo desfrisado. Os homens rapam-no. As modas americanas pegam depressa. 

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