DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

terça-feira, 7 de junho de 2011

CRÓNICAS DE ANGOLA - CHITULA (RECOMEÇAR)

Há mais de cinquenta anos que não percorria uma picada de terra batida no final da época das chuvas. Cinco léguas de mau piso afligem a suspensão da carrinha e as articulações dos passageiros. Contas feitas, valeram a pena as sacudidelas. Estou sentado numa cadeira de encosto, no coração de Angola, numa fazenda do Catófe, na região da antiga Cela, hoje conhecida por Waco Kungo. Há três dúzias de metros de terreno capinado entre mim e o mato, que me parece imutável e quase eterno.À noite, juntam-se ali as feras de verdade aos medos nascidos da imaginação.
Confesso que tive algum receio de enfrentar o firmamento estrelado do planalto angolano. Felizmente, a lua cheia acudiu-me, retardando o deslumbramento.
A fazenda conta cerca de 400 hectares e chama-se Chitula. O nome significa recomeçar. Quando as colheitas da família esgotam a terra pobre, é necessário abandonar o kimbo, construir outras habitações e fazer lavras novas em terreno repousado.


Aqui estou, banhado pelo luar, em harmonia comigo e com o mundo. Não vim cá para me encontrar. Sei quem sou e aonde pertenço. Ainda assim, achei que esta viagem fazia falta à minha vida.
Um negro de cabelos brancos, depois de me ouvir falar, sugeriu que eu me havia de sentir bem aqui, em paz com as minhas recordações. Fiz há muito as pazes com elas, mas respondi-lhe:
- Há quem tenha ficado a vida inteira com o coração cortado ao meio...
O terreno desce progressivamente até ao rio Catófe. O fundo do vale não se avista, encoberto pela vegetação elevada. Do lado de lá fica a encosta da montanha, coroada por uma formação rochosa. A parte mole ou solúvel da terra cedeu à erosão e foi arrastada pela água das chuvas em direcção ao rio. Ficou o caroço da serra, feito de rocha altaneira.
Ao fim da tarde, deixo-me tomar por uma tristeza vaga. Será o mal estar de alguém que já viveu bastante e julgou entender os caminhos da História, mas que nunca curou de todo a mágoa de ter chamado sua a uma terra que deixou de lhe pertencer.
Chego a pensar que foi a parte mole e solúvel da minha alma que melhor se adaptou à erosão da vida. Há um caroço mais rijo que, de tempos a tempos, ainda se lembra de doer.

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