DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei... Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

CRÓNICAS DE ANGOLA - CARVÃO


- Estás a fazer carvão, Sapalo?
- Não, mãe. Ainda estou só a ganhar experiência...
"Mãe" é uma forma de tratar uma mulher mais velha. A Licita continuou:
- E não tens vergonha de cortar as árvores grandes? Se todos fizerem como tu, a nossa terra vai ficar só com capim. Depois, a chuva não vem...
O discurso pedagógico da minha amiga Licita tem reduzidas possibilidades de êxito. O carvão é consumido essencialmente pelas populações urbanas, para cozinhar (em alternativa ao gás) e para o aquecimento. Cada saco é vendido por 500 kuanzas (o equivalente a cinco dólares americanos). As camionetas vêm recolhê-los, mesmo a lugares recônditos, duas vezes por semana.
Para quem  não tem emprego numa fazenda nem mora à beira de uma estrada movimentada onde possa vender o excedente da produção agrícola, o fabrico e a venda de carvão representam  uma das poucas oportunidades de ganhar o dinheiro indispensável para comprar os bens que a terra não dá.
Enquanto assim for, Angola vai continuar a ser desarborizada. A erosão dos terrenos férteis irá acentuar-se. Percorri três mil quilómetros no centro e sul do País e pude constatar que a presença de sacos de carvão é uma constante nas bermas dos caminhos.
Nas matas que ladeiam as estradas vão faltando árvores. Os embondeiros, que não servem para madeira nem para fazer carvão, tornam-se ainda mais preponderantes na paisagem. Começam a encontrar-se áreas despidas da grande vegetação.
O fabrico de carvão não é o único responsável. Os criadores de gado precisam de espaço para as pastagens. A floresta vai sendo sacrificada.  

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